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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

À GUISA DE INQUIETAÇÃO


Amigo e irmão - sei que posso chamá-lo assim com todo o teor das palavras,

De antemão, quero parabenizá-lo pelo texto: Pastores de Sucesso. Ele é uma verdadeira ironia com características proféticas, ou se preferir, uma profecia com características irônicas. Sei que muitas pessoas não entenderão o que você expressou, mas não importa, afinal, o mundo plural no qual todos estamos inseridos permite-nos pensar qualquer coisa. Kyrie Eleisson

Seu texto combina com o aforismo de T. S. Eliott, tão citado por Rubem Alves: "Em um país de fugitivos, quem anda na direção contrária parece que está fugindo". Grande paradoxo esse, não acha? Como é interessante notar que as pessoas que se despontam com o único intuito de expressar ética e integridade no cenário eclesial são tratadas com indiferença, seguida pela lacônica expressão: "está em crise" – jargão que determina, em suas entrelinhas: “não possuo argumentos”. Kyrie Eleisson

Mas eu quero a crise! Quero vivê-la com toda a intensidade! Quero percebê-la, não no seu outro sentido mandarim - oportunidade. Quero me apropriar dela no seu sentido mais latino e passional, ou seja, sofrimento e inquietação.
Estou, assim como você, remando contra a maré. E com a nau caotizada pelos furos e intempéries das águas e das chuvas ácidas.

Entretanto, quero me dirigir aos céticos espirituais, quem sabe por causa de um restolho de esperança presente em minha alma angustiada:

Sei que os impressionados com os jargões evangelicais dirão: olha, aí está um pastor sem visão. Por favor, não se enganem! Orgulho-me de não ter visão (literalmente dizendo), mas continuo a me humilhar ante a luz daquele que é muito maior que todas as minhas insignificantes mediocridades. Não se enganem, pois tudo isso que em mim acontece me remete a uma consciência plena de liberdade e gratuidade. Acho, entretanto, que as pessoas, principalmente as ligadas ao cristianismo se esqueceram da tônica dessas manifestações de Deus. Kyrie Eleisson
Liberdade e Graça estão diretamente ligadas à idéia do amor de Deus, que se revela na simplicidade de cada momento e nos convida para um desenvolvimento relacional e até mesmo paritário. Esse Deus não quer ser manipulado ao bel prazer ilícito dos que vociferam continuamente contra as pessoas de bem. Nessa mesma linha, o Kíwitz afirma que Deus não é um ventilador para ser manipulado. Ele é vento que sopra onde quer. Aliás, acho que a maioria dos evangélicos não gosta muito dessa idéia de Deus como vento. Eles preferem o ventilador e quanto mais pequenino melhor, pois se pode movimentá-lo com mais facilidade - Kyrie Eleisson.

Preciso ainda confessar, que em muitos momentos gostaria de não ter pudor evangélico. Pelo menos poderia xingar um "palavrão" com o intuito de revelar, no mínimo, minha indignação ante ao lixo em que se torna o evangelho no Brasil - generalizando mesmo. Nunca se ouviu falar tanto de "homens" e "mulheres" "de Deus", como se isso credenciasse qualquer pecador perdoado a um patamar superior, como crentes de primeira classe. Quero a cruz!

A bem da verdade, acho que preciso "vomitar" muita coisa, principalmente os absurdos engolidos ao longo de uma trajetória de fé. Encontrei-me com a graça de Deus na vida e, posteriormente, na Igreja Metodista. Observei e me espelhei em pastores e pastoras, em irmãos e irmãs que vivenciavam suas experiências de fé e conquistavam suas igrejas pela simplicidade e carisma. Vi ministros não tão eloqüentes, que viviam com intensidade a dimensão da graça... Só graça... E me encantei com isso.
Mas a senhora, inescrupulosa e prostituta, conhecida também pelo nome de mediocridade sobressaiu nos púlpitos dessa igreja ainda amada que perde, cotidianamente, o sentido de ser.

Como diria a Adélia Prado:

"Tudo está na esfera do religioso, não tem jeito de fugir..." "Eu vi um documento esses dias, o documentário se chama Fé, sobre as manifestações religiosas no Brasil, então pegaram umas velhinhas lá em Canindé, mas aquelas velhinhas mesmo, espertinhas, e o repórter perguntou pra uma delas: 'Por que a senhora está aqui em Canindé? ' - 'Ah! Vim agradecer uma graça, meu filho, porque neste mundo a gente tem que sofrer, tem que sofrer. ' Qualquer psicólogo modernoso vai falar: 'Ai, que complexo de culpa! Leva essa mulher logo... ' Não, ela está certa! Ela estava falando 'tem que sofrer' com a cara mais feliz, mais iluminada do mundo!" (Adélia Prado).


Somente faria uma adaptação à crônica de Adélia - pífia pretensão a minha, mas necessária - 'Qualquer pastor modernoso vai falar: Ai, você não pode dizer assim. Você é mais que vencedora! Leva essa mulher para uma campanha de oração! '

Triste ironia a nossa, não acha?

Mas ainda bem que existe apocalipse.

Valeu mano, por provocar em minha mente insana essas palavras emblemáticas.

Moisés Coppe.
30 de agosto de 2008.

2 comentários:

Alécio disse...

Meu irmão!!!!!!!!
Você não deixou por menos hein!
Olha você e o Maurício deveriam escrever um livro, mas não seria santo o suficiente para algu´me comprar.
Continue com essa inquietação, nos esclarecendo e mostrando-nos o caminho a trilhar.

Grande Abraço

Júnior

walkimar disse...

inquietos.Sim, qualquer filho de Deus que para para pensar um pouquinho que seja, verá que estamos apodrecendo antes de amadurecer. EStou conhecendo este blog hoje, mas percebo que voltarei muitas vezes para navegar por aqui.Também estou inquieto.Não concordo com todas as suas palavras, tipo, quero a cruz.Não vou procurá-la, mas e aparecer, e com certeza irá, vou enfrentá-la, mesmo porque sei que a cruz não é o fim, mas o meio, depois dela vem a morte, ressurreição e ascenção.
Não sou neopentecostal, me considero um homem fervoroso,tendo conhecido a Cristo na Igreja Metodista e nela permanecendo até hoje, inquieto, é verdade, mas com esperança de que as coisas mudarão. Não sou reacionário,nem revolucionário, nem reformista,nem tradicional,na verdade tenho um pouco de todos eles,pois sei que cada tipo dá sua contribuição.
Vivemos tempos difíceis, mas quando foi facil ser cristão?Em que momento os ventos sopraram a favor?
Agora, não li o texto no qual fundamentaste, mas dá pra ter uma visão.
Penso, MOisés, que deveríamos investir com mais força no propósito de uma igreja curada, comunidade terapêutica, lugar de adoração, não de adoracionismo(v.pr. Isaltino.Lugar de comunhão, mas do que um lugar,mas do que uma organização, um organismo vivo,no qual todos se sintam parte integrande, não isolado, não menor, mas junto, participante, com alegria.
É melhor ficar por aqui.
Até uma outra oportunidade.
paz.
Walkimar