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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Passos para tornar-se um/a pastor/a bem sucedido/a



Sou pastor metodista há quinze anos, ordenado há dez. Participei como membro clérigo de sete Concílios da IV Região Eclesiástica (Minas e Espírito Santo) e visitei – pela primeira vez e por um dia – um Concílio Geral (2006). Imaginei-me aconselhando um jovem para tornar-se um pastor “bem sucedido” na nossa Igreja Metodista.
Já fiz isso em outras ocasiões – a última vez há seis anos – e não incluí na conversa o adjetivo “bem sucedido” porque eu achava que pastorado não combinava com “sucesso”. Mas eu estava enganado. Os tempos são outros! Por isso, mudaria minhas orientações.
Primeiro passo: Seja esperto. Você já está com 25 anos e sem perspectiva de vida. Não consegue entrar para universidade pública, não tem um bom emprego. É um bom rapaz, apesar de ser um pouco preguiçoso. Não quer ser pastor? Veja, que alternativa você tem? O mercado de trabalho não vai te absorver tão cedo! Como pastor solteiro você terá, de cara, salário, casa, água, luz, ajuda para transporte, plano de saúde e até seguro de vida. Chamado? Deus já te chamou, rapaz! Só você não percebeu. Olhe as circunstâncias. Olhe as suas necessidades. O mundo está cada vez mais religioso e nós, evangélicos, estamos crescendo neste país. Você vai ficar de fora? Pense bem!
Segundo passo: Apareça. Agora que Deus te chamou, você vai precisar da recomendação da igreja local. É importante que você tenha visibilidade na comunidade. Se você toca algum instrumento, ótimo! Se não, cante no ministério do louvor. É um ministério concorrido, mas eu garanto que para você não haverá escala – você “ministrará” em todos os cultos. Entenda por “ministração” aquela falação entre uma música e outra, com chavões indispensáveis para impressionar a congregação e alguns gemidos com mudança da voz. Mas não se preocupe. É só a gente arranjar alguns dvds de ministérios de louvor famosos e você aprende tudo em duas horas. Aliás, guarde bem o que te digo agora: sempre que puder compre cds e dvds de músicas evangélicas. Esteja por dentro de tudo sobre o “mundo gospel”. Se tiver de escolher entre comprar um livro ou um cd, nunca hesite: compre o cd, ele te ajudará mais. Voltando para a questão da visibilidade, devo te exortar: nunca apareça na congregação da periferia ou da zona rural, nunca apareça no hospital para visitar os enfermos, nunca apareça na cadeia para visitar os presos, nunca apareça na casa dos irmãos para visitá-los – mesmo se estiverem enfermos ou forem idosos, nunca apareça nas atividades dos ministérios que trabalham com proclamação, evangelização, missões ou ação social. Nada disso dá ibope, meu filho! Lembre-se: você precisa da recomendação para ingresso no pré-teológico. Com menos de um ano, aparecendo assim como estou orientando, garanto que toda comunidade votará favorável a você.
Terceiro passo: Seja dissimulado. No pré-teológico você será avaliado para ver se tem condições de entrar para Faculdade de Teologia. Você terá de ler os textos indicados e freqüentar todas as reuniões. Como ninguém te conhece e ao final de um ano você terá passado algumas horas com outros candidatos e uns professores, dá para enganar. Não fale demais. Ouça com atenção. Em qualquer discussão, nunca seja o primeiro a falar; preste atenção nas falas e tente concordar com todos, passando uma impressão de conciliador – no popular, “em cima do muro”. Tente passar a imagem de que você é estudioso. Na entrevista com o diretor mostre firmeza e certeza do seu chamado. Na entrevista com a psicóloga, cuide para revelar-se liberal especialmente se houver perguntas sobre sexualidade. Depois, virá o vestibular, que não é um “bicho de sete cabeças”. Ah, é preciso contar com a sorte também!
Quarto passo: Seja um louco-irresponsável-puxa-saco. Você vai estudar quatro anos na Faculdade de Teologia em São Bernardo do Campo. Aproveite bem esse tempo, ele não volta mais. Mas aproveite do modo certo. Primeiro, liberte-se do mundinho de moralidade que foi sua igreja local e sua família. Esteja aberto a qualquer experiência sexual ou com drogas que te traga prazer ou te faça “transcender”. Quem sabe você fará a grande descoberta de que está “no armário” e precisa sair dele. Ou, se não for o seu caso, e tiver sorte, consiga casar-se para “legalizar” o “relacionamento”. Busque todo prazer e arranje uma teologia para justificar esse modo de vida. Cuide para não se viciar, porque depois de quatro anos você retornará à sua região de origem para ser pastor. Segundo, não estude. Ou, como se fala em todos os tempos, “pique o fumo”. Aluno de Teologia não é reprovado. E o que importa é o diploma de Bacharel em Teologia que você exibirá orgulhosamente em alguma parede. Então, seja medíocre mesmo. Tenha a honra de dizer o que disse um aluno no culto de formatura para um amigo meu há quatro anos: “terminei o curso de Teologia e não li quatro livros inteiros”. Ou o orgulho de tantos outros que passaram por lá e hoje dizem de boca cheia: “passei pela Faculdade mas ela não passou por mim”. Terceiro, comece a treinar a habilidade de “puxar saco” de quem está acima de você: professores, reitores, componentes de conselho diretores, superintendentes distritais, bispos. Você terá muitos concorrentes nesse treinamento, mas esmere-se, porque seu futuro vai depender disso.
Quinto passo: Seja um gerente. Agora você vai assumir sua primeira igreja. O material para sua leitura diária deve ser tudo que você conseguiu juntar sobre estrutura e funcionamento da igreja, administração e liderança. Se possível, faça alguns cursos rápidos como: vendas, porque o Evangelho que você vai pregar é como um produto que precisa ser apresentado convincentemente para ser comprado; marketing, porque sua igreja vai precisar criar necessidades nas pessoas para freqüentarem os cultos. Faça seminários de fins de semana com os pastores de sucesso sobre como dobrar a arrecadação da sua igreja. Enfim, existem cursos e farto material para transformar você num grande manager. Porque o que importará quando você for avaliado será o “resultado”, que é culto lotado de gente e aumento da arrecadação – obviamente não como fruto da fidelidade a Deus, mas por sua habilidade gerencial.
Sexto passo: Seja um líder ditador. A membresia da Igreja Metodista não admite um/a pastor/a que ouve, é democrático, é conciliador e não abre mão de presidir, dirigir a comunidade. Ela prefere um/a pastor/a “banana”, aquele/a que não dirige nada, não se posiciona e deixa a comunidade na mão de um grupinho “que faz” – desde que tenha algum poder de influência, seja econômico ou de conhecimento – ou prefere um/a pastor/a ditador/a, aquele/a que centraliza tudo, não ouve, manda, faz a agenda para seus “súditos” cumprirem. Prefira, jovem, ser o ditador. Combina mais com o quinto passo dado. Aliás, apesar da ditadura ter acabado no Brasil há mais de vinte anos, ela está de volta na América Latina com uma nova roupagem, arrancando elogios de muitos “democratas”!
Sétimo passo: Seja um animador de altar. Você será um palrador, um tagarela, mas nunca um pregador. Esse “tipo” de pastor/a, que ainda teima em pregar a Bíblia, está fora de moda, vai acabar. Para ser um bom animador de altar, ou palco – algumas igrejas já não têm altares – é preciso: Primeiro, ter um bom grupo de louvor. Leia de novo o segundo passo nomeado “apareça”. Esse grupo será tão importante que muitas vezes você nem terá o trabalho de falar; as pessoas vão “sentir” Deus e vão ficar na sua igreja. Segundo, não preocupar-se com a Bíblia. Ela, a Bíblia, é sua grande desconhecida. Você nunca a leu toda. Ela vai te servir como material decorativo e algumas vezes como amuleto. Mas, antes de falar, leia um texto ainda que você nada fale sobre ele. E se por acaso for falar sobre algum texto, não se importe com o contexto em que foi escrito. Leia os fatos históricos do Antigo Testamento sempre como analogia para interesses individualistas da sua congregação e transforme Jesus Cristo num grande milagreiro como fazem os tagarelas da confissão positiva e teologia da prosperidade. Uma boa mensagem também é aquela retirada de manuais de auto-ajuda. Você pode ler um salmo como pretexto para tagarelar e vai fazer um grande sucesso se aprender a psicologizar sua tagarelice. Mas cuidado. Evite os versículos de lamento e confissão de pecado. Terceiro, usar “chavões” e berros para impressionar a congregação. Preste atenção: até a saudação já virou um chavão e um identificador do “pregador ungido”. Se você disser um “boa noite” no lugar de um “a paz do Senhor” corre o risco de não ganhar a simpatia dos fiéis. Ao ler qualquer texto e em qualquer falação use estas palavras (e os verbos correspondentes): unção, vitória, alegria, glória, conquista, promessa, saúde, cura, prosperidade, diabo, bênção, maldição, etc... Se você agüentar tagarelar aos berros, melhor. Se não, guarde-os para as frases de efeito, por meio das quais você convencerá os ouvintes. Aí você os verá levantando as mãos, dizendo “amém” e “aleluia”, batendo palmas, mesmo que tenham acabado de ouvir uma grande bobagem.
Oitavo passo: Celebre os sacramentos a seu bel prazer. Nunca use qualquer ritual para tais celebrações. Tire tudo da sua cabeça sob a inspiração do momento, pois o que mais vale é a espontaneidade! Que a Ceia do Senhor não seja mais que um pequeno “anexo” ao final de um culto que teve mais de uma hora de “louvor” e mais uma de tagarelice. Quanto ao Batismo, atenção! Não estude com os/as batizandos/as sobre conteúdo e forma desse sacramento. Apenas pergunte de que jeito ele/a quer ser batizado: aspersão, imersão ou derramamento? Sobre a administração do mesmo às crianças, faça o que você achar melhor. Há pastores que batizam. Há outros que não batizam e pregam contra o batismo de crianças. E todos são metodistas! A Igreja Metodista aprovou a participação das crianças na Ceia do Senhor desde o início dos anos 90. E o fez porque sempre recebeu as crianças no Corpo visível de Cristo – a igreja local – por meio do Batismo. Por serem batizadas, as crianças são convidadas à Mesa do Senhor. Contudo, a falta de Batismo para crianças fez surgir uma prática que não existe em nenhuma Igreja Cristã séria na face da Terra: a participação de não batizados/as na Santa Ceia. A Igreja Metodista foi muito responsável ao trabalhar a inclusão das crianças por meio dos únicos sacramentos por ela celebrados. Mas, se pastores/as e pais excluem as crianças do Batismo, com que consciência admitem a participação delas na Ceia? Não é uma questão teológica séria? Mas não se preocupe, jovem candidato ao ministério! Isso é demais para sua cabeça! Se você não entende e nem se importa, como vai ensinar? Deixe as coisas como estão. Sacramentos têm a ver com a história e a tradição cristãs. Mas, hoje, quem se interessa por isso?
Nono passo: Seja sectário. Você está proibido de ler, pelo menos, três textos de J. Wesley: “Carta a um Católico Romano” e os sermões “Contra o Sectarismo” e “O Espírito Católico”. Demarque bem a linha divisória dos que “são abençoados” e dos que “não são abençoados”, justificando que você e sua igreja receberam uma “nova unção” que outras igrejas não têm e que por isso todos devem vir para a “sua” igreja se quiserem ser “abençoados”. Não esqueça de gastar bastante tempo em suas tagarelices falando contra a Igreja Católica. Seja anti-católico como um apaixonado torcedor de futebol torce contra o time adversário. Alimente o anti-catolicismo com as histórias de perseguição sofridas pelos nossos antepassados protestantes, de tal maneira que gere entre os fiéis rancor, ódio e sede de vingança. Você vai contribuir para a intolerância crescente dos dias atuais.
Décimo passo: Guarde os pecados alheios como “trunfos na manga”. A Igreja de Cristo é santa e pecadora. Homens e mulheres são pecadores/as salvos pela Graça de Deus. No decorrer do seu trabalho muitos serão os pecados que você cometerá e que outros cometerão contra você. E você sabe que Deus perdoa pecados. Ele, em Cristo, reconciliou consigo o mundo. Mas como essa conversa sobre perdão é para gente simples e humilde, que não perdeu o coração, então esqueça. Você estará em outro nível, rapaz. Deus perdoa, mas você não! Pelo contrário, revide, vingue! E como muitas vezes não dá para revidar ou vingar na hora, então guarde os pecados dos outros como “trunfos na manga”. Mais tarde você vai usá-los. Para você, jovem, que deseja ter sucesso e crescer, aprenda cedo esse “jogo” do poder. É o que os antigos chamavam de ter “rabo-preso”: manter pessoas sob controle pelo conhecimento que se tem de pecados do passado ou do presente. Só tenha cuidado para não descobrirem os seus pecados também. Mas se descobrirem-nos, não se afobe. Você apenas estará no círculo de pessoas que têm “rabos-presos” umas com as outras. É só fingir que está tudo bem e todos se mantêm como estão!
Décimo-primeiro passo: Busque os seus direitos. Se algum dia você se sentir ofendido ou injustiçado, busque seus direitos. Mas lembre-se: você não perdoa, não há possibilidade de reconciliação, você não pode “sair perdendo”. Quem “pisar na bola” com você vai pagar caro. E não adianta tentar resolver o problema “entre os santos” (haverá algum?) como o apóstolo Paulo aconselha. Vá para a justiça comum. Vá para a mídia escrita e televisiva – de preferência com repercussão nacional. A má fama das igrejas evangélicas no Brasil e a formação secularizada de muitos juízes são dois fatos que te farão sair em vantagem em qualquer processo. Você poderá até ganhar uma boa grana! Depois de todo estardalhaço vão reconhecer que você é corajoso. Então você volta ao “seio da amada igreja” ainda mais forte com a testa escrita “cuidado, não mexam comigo!”
Pode ser que a lista de passos a serem dados para você se tornar um pastor metodista de sucesso seja bem maior, mas vou ficando por aqui.
Agora, se tudo isso não enche os seus olhos, rapaz, há um outro caminho. E te digo de uma vez que é estreito e espinhoso. Quer saber?
Você terá de receber o chamado de Deus para aventurar-se na vida sacerdotal e ministerial. Você terá certeza do chamado. Junto com a certeza você terá dúvida. A dúvida será fruto do sentimento de indignidade, de incapacidade e inadequação: “Eu não sei falar”, “Eu sou o menor na casa de meu pai”, “Não passo de uma criança”, “Ai de mim, estou perdido, sou homem de lábios impuros”... A dúvida estará presente sempre, podendo chegar ao ponto de você dizer “fui enganado” ou “persuadido” ou “seduzido” por Deus, “já não falarei no seu nome”. Seu inimigo não será a dúvida, mas o medo. Por isso, necessário será ouvir dEle continuamente: “Não temas, eu estou contigo!”
Você terá de ser você mesmo, se assumindo como “pecador salvo pela graça de Deus”.
Você terá de ser normal, responsável e aberto para amizades saudáveis.
Você terá de ser fiel àquelas tarefas que um/a pastor/a deve fazer sem que ninguém veja: a oração, a leitura da Palavra e a orientação espiritual.
Você terá de trabalhar como cooperador de Deus, “plantando e regando” e deixando por conta dEle o “crescimento”. Como canta o grupo Logos “até porque resultados não são o indicador verdadeiro de aprovação. Há quem curou e o diabo expulsou mas Jesus nunca o conheceu” (do cd “Conteúdo”).
Você terá de celebrar os sacramentos e pregar a Palavra de Deus tendo a tradição e a história cristãs como instrumentos de inspiração e avaliação para a caminhada de hoje, sem ser denominacionalista – como aqueles que se arrogam ser os “mais metodistas” – nem sectarista – como aqueles que se sentem “donos” da salvação.
Você terá de perdoar os que te prejudicarem, assim como você tem sido perdoado por Deus em Cristo Jesus. Isso vai depender de você se colocar humildemente diante do Pai e abrir-se ao poder curador de sua Graça, desistindo do “direito de não perdoar”, como dizia o Dr. David Seamands. Não é fácil, especialmente se você for “ferido na casa de amigos”.
Como você pode ver, jovem, o que precisamos fazer é conseqüência da Graça de Deus revelada em Cristo e atualizada em nós pelo Espírito Santo.
Esse caminho é bem mais difícil por causa do nosso afastamento de Deus, da nossa autoconfiança, da nossa soberba, da nossa sede de poder, da nossa busca de reconhecimento a todo custo, do abandono da nossa condição de pecadores/as, e tantos outros tropeços, buracos, curvas que nós mesmos acrescentamos ao caminho.
E o “prêmio” desse caminho não é “o sucesso”. Quem nele seguirá?
“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especialmente para convosco.” (Paulo – 2 Co 1.12)
“Ora, o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.” (Pedro – 1 Pe 5.10,11)

Maurício C. Ramaldes Guimarães.

À GUISA DE INQUIETAÇÃO


Amigo e irmão - sei que posso chamá-lo assim com todo o teor das palavras,

De antemão, quero parabenizá-lo pelo texto: Pastores de Sucesso. Ele é uma verdadeira ironia com características proféticas, ou se preferir, uma profecia com características irônicas. Sei que muitas pessoas não entenderão o que você expressou, mas não importa, afinal, o mundo plural no qual todos estamos inseridos permite-nos pensar qualquer coisa. Kyrie Eleisson

Seu texto combina com o aforismo de T. S. Eliott, tão citado por Rubem Alves: "Em um país de fugitivos, quem anda na direção contrária parece que está fugindo". Grande paradoxo esse, não acha? Como é interessante notar que as pessoas que se despontam com o único intuito de expressar ética e integridade no cenário eclesial são tratadas com indiferença, seguida pela lacônica expressão: "está em crise" – jargão que determina, em suas entrelinhas: “não possuo argumentos”. Kyrie Eleisson

Mas eu quero a crise! Quero vivê-la com toda a intensidade! Quero percebê-la, não no seu outro sentido mandarim - oportunidade. Quero me apropriar dela no seu sentido mais latino e passional, ou seja, sofrimento e inquietação.
Estou, assim como você, remando contra a maré. E com a nau caotizada pelos furos e intempéries das águas e das chuvas ácidas.

Entretanto, quero me dirigir aos céticos espirituais, quem sabe por causa de um restolho de esperança presente em minha alma angustiada:

Sei que os impressionados com os jargões evangelicais dirão: olha, aí está um pastor sem visão. Por favor, não se enganem! Orgulho-me de não ter visão (literalmente dizendo), mas continuo a me humilhar ante a luz daquele que é muito maior que todas as minhas insignificantes mediocridades. Não se enganem, pois tudo isso que em mim acontece me remete a uma consciência plena de liberdade e gratuidade. Acho, entretanto, que as pessoas, principalmente as ligadas ao cristianismo se esqueceram da tônica dessas manifestações de Deus. Kyrie Eleisson
Liberdade e Graça estão diretamente ligadas à idéia do amor de Deus, que se revela na simplicidade de cada momento e nos convida para um desenvolvimento relacional e até mesmo paritário. Esse Deus não quer ser manipulado ao bel prazer ilícito dos que vociferam continuamente contra as pessoas de bem. Nessa mesma linha, o Kíwitz afirma que Deus não é um ventilador para ser manipulado. Ele é vento que sopra onde quer. Aliás, acho que a maioria dos evangélicos não gosta muito dessa idéia de Deus como vento. Eles preferem o ventilador e quanto mais pequenino melhor, pois se pode movimentá-lo com mais facilidade - Kyrie Eleisson.

Preciso ainda confessar, que em muitos momentos gostaria de não ter pudor evangélico. Pelo menos poderia xingar um "palavrão" com o intuito de revelar, no mínimo, minha indignação ante ao lixo em que se torna o evangelho no Brasil - generalizando mesmo. Nunca se ouviu falar tanto de "homens" e "mulheres" "de Deus", como se isso credenciasse qualquer pecador perdoado a um patamar superior, como crentes de primeira classe. Quero a cruz!

A bem da verdade, acho que preciso "vomitar" muita coisa, principalmente os absurdos engolidos ao longo de uma trajetória de fé. Encontrei-me com a graça de Deus na vida e, posteriormente, na Igreja Metodista. Observei e me espelhei em pastores e pastoras, em irmãos e irmãs que vivenciavam suas experiências de fé e conquistavam suas igrejas pela simplicidade e carisma. Vi ministros não tão eloqüentes, que viviam com intensidade a dimensão da graça... Só graça... E me encantei com isso.
Mas a senhora, inescrupulosa e prostituta, conhecida também pelo nome de mediocridade sobressaiu nos púlpitos dessa igreja ainda amada que perde, cotidianamente, o sentido de ser.

Como diria a Adélia Prado:

"Tudo está na esfera do religioso, não tem jeito de fugir..." "Eu vi um documento esses dias, o documentário se chama Fé, sobre as manifestações religiosas no Brasil, então pegaram umas velhinhas lá em Canindé, mas aquelas velhinhas mesmo, espertinhas, e o repórter perguntou pra uma delas: 'Por que a senhora está aqui em Canindé? ' - 'Ah! Vim agradecer uma graça, meu filho, porque neste mundo a gente tem que sofrer, tem que sofrer. ' Qualquer psicólogo modernoso vai falar: 'Ai, que complexo de culpa! Leva essa mulher logo... ' Não, ela está certa! Ela estava falando 'tem que sofrer' com a cara mais feliz, mais iluminada do mundo!" (Adélia Prado).


Somente faria uma adaptação à crônica de Adélia - pífia pretensão a minha, mas necessária - 'Qualquer pastor modernoso vai falar: Ai, você não pode dizer assim. Você é mais que vencedora! Leva essa mulher para uma campanha de oração! '

Triste ironia a nossa, não acha?

Mas ainda bem que existe apocalipse.

Valeu mano, por provocar em minha mente insana essas palavras emblemáticas.

Moisés Coppe.
30 de agosto de 2008.