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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

INDIGNAÇÃO CONTRA OS BEÓCIOS

Ó Deus, não fique longe de mim; ó meu Deus, apresse-se em ajudar-me (Sl 71.12). Envie relâmpagos e disperse os inimigos, atire suas flechas (Sl 144.6), e que todas as imaginações do Inimigo sejam confundidas. Recolha e faça seus estes meus sentidos; faça-me esquecer todas as coisas mundanas; conceda que eu lance fora bem depressa e despreze todos os espectros pecaminosos. Socorre-me, ó eterna Verdade, para que nenhuma vaidade me comova! Venha a mim, doçura celestial, e que toda impureza fuja de diante de sua face”.

Thomas à Kempis.

Vez por outra, sou tomado de extrema indignação. E não me indigno por causa de leviandades. Sei que elas são imaginações do inimigo e, certamente, possuem um endereço certo: minha repulsa. Indigno-me contra aqueles que, levantando a voz e com sutileza, demonstram sentimentos díspares cauterizados pelo desejo por poder. Ah! O poder, essa mísera palavra que mexe profundamente com toda a existência humana, que exalta o egoísmo embora a sede dos injustiçados seja por altruísmo. Pelo poder, mata-se; pelo poder abandona-se; pelo poder, trai-se; pelo poder, corrompe-se; pelo poder, anulam-se amizades e sonhos que outrora foram dignificantes. Perdem-se, assim, as possibilidades de um outro mundo possível.

Indigno-me com a busca pelo poder; do poder para o poder. Do poder para poder. E como se não bastasse esta ansiosa disputa insolente na esfera da vida, vislumbro ainda por parte de muitos a repartição dos despojos e a celebração com mordacidade, perante uma mesa inescrupulosa, dos restos de alguém outrora querido. E vale aqui o clamor de Kempis: recolha a Ti Senhor os meus sentidos. Isso porque meus sentidos querem trair-me ou mesmo levar-me a atitudes contestadoras de teor blasfemo. Mas que sentidos podem se expressar frente a situações sem sentido? Que resposta dar frente a questões que não possuem razão ou estrutura, só falcatruas, pois eivadas de comentários perniciosos daqueles que vociferam: “o meu Deus é maior”.

Indigno-me, sim, com a injustiça daqueles que, com o dedo em riste, insistem em expor mentiras, inventar causos e semear discórdias sem ao menos perguntar pela verdade. Tal como o salmista, anseio ecoar minha voz aos céus expressando: “se fosse o meu inimigo, eu suportaria, mas é tu, meu amigo e íntimo companheiro...”.

Entretanto, continuo a lutar para defender de forma muito precisa a minha honra, coisa última que me resta. E assim o farei com astúcia e coragem. Aprendi desde cedo, com aqueles que me geraram a vida que honra é um tesouro imensurável que se deve estampar na expressão do rosto. Honra é coisa de áulico e não de gente medíocre que teatraliza no real por medo de se assumir como é, como está, o que quer. Honra é um pedaço de pão embrulhado em um guardanapo, guardado em algum armário da despensa, mas conservado para a hora da necessidade, não para a vaidade. Honra é o fim último de todos aqueles que almejam fazer diferença na vida, com vida.

Indigno-me com os beócios, que de tão idiotas, acham que seu pequeno mundo de sentidos medíocres possui dimensões inimagináveis. Quão tolos são. Diante da imensidão deste universo com mais de 100.000.000 (cem milhões) de galáxias, acham-se possuidores das chaves dos céus e do inferno. Assim, imagino Deus dando as costas para os dados à tolice de suas briguinhas de fazer rir.

Não sou perfeito, tenho minhas contradições. Entretanto, anseio por justiça. Anseio por gente que aja com respeito, com o mínimo de responsabilidade social, com postura cristã. É muito triste saber que pessoas disseminam maledicências, em nome de Deus, por se julgarem melhores, por se considerarem superiores. Para estes (as), vale aquele conselho esquecido, oriundo de um velho livro de sabedoria, que evidencia: “considere o outro superior a você mesmo”.

Mas o pior é perceber que estes “santos homens” e “santas mulheres” usam de sua argúcia para conduzir gente crente e temente a Deus não pelas vias da santidade, mas pelas avenidas da insanidade eclesiástica. Dizem servir a Deus, todavia são condicionados por desejos que seguem a lógica do “outro”, com forte ênfase na expressão: “tudo isso te darei se prostrado me adorares”.

Enfim, indigno-me com os que semeiam discórdias nas caladas da madrugada num ambiente que existe para a “conciliação”. Indigno-me com os que não têm coragem de encarar os olhos ou com os que não têm a hombridade de revelar o que pensam. Indigno-me com os buchichos e conversinhas de bastidores que amealham a ética. Indigno-me com aqueles que não deslindam a verdade e se arvoram de fraudulentas argumentações ou mexericos de dar dó.

Mas, mesmo em meio a esse caudal de indignação, que venha a mim a doçura celestial e que toda a impureza fuja do meu coração, e de alguma forma, também da face do meu Senhor.

Moisés Coppe.