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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A ESPIRITUALIDADE DA MUDANÇA

Ao propor o que chamamos aqui de espiritualidade da mudança, temos em mente o princípio norteador de que somos seres mutáveis. Assim, nos compreendemos como seres em processo de mudança. Aliás, todos nós temos a necessidade de mudar. E mudar, necessariamente, significa abraçar um novo paradigma.
Segundo o físico e cientista de sistema Fritjof Capra, ao analisar as complexidades de nosso tempo atual: “precisamos, pois, de um novo paradigma – uma nova visão da realidade, uma mudança fundamental em nossos pensamentos”. (CAPRA, 1982, p. 14). Essa afirmação de Capra evidencia a presença de uma crise, configurada até em níveis mundiais. E é claro que toda e qualquer mudança decorrente de uma crise é fruto da forma como se vê o mundo.
Se analisarmos bem, a visão de mundo foi se alterando paulatinamente, mediante a descoberta de novas possibilidades descritivas e analíticas. Não podemos deixar de citar que algumas dessas mudanças foram extremamente revolucionárias, como no caso das mudanças provocadas por John Gutemberg (invenção da imprensa), Nicolau Copérnico (descoberta de que a terra gira em torno do sol), Galileu Galilei (teoria heliocêntrica) e Isaac Newton (lei da gravidade).
Poderíamos citar várias referências históricas que denotam essa possibilidade mutacional presente na esfera universal. Entretanto, nos deteremos à análise no campo da espiritualidade, embora esse conceito seja um tanto quanto complexo.
Para ser sucinto, definimos a espiritualidade como o equilíbrio que dada pessoa angaria ao longo de sua existência, coligando-a a dinâmica de todas as suas relações. Isso quer dizer que todas as coisas que fazemos, realizamos e sentimos estão em íntima relação como nossa espiritualidade. Outrossim, a espiritualidade não pode estar desconectada da vida. Como diria Mahatma Gandhi, “um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”.
Então, considerando a espiritualidade da mudança, vamos tentar sistematizar algumas opiniões que poderão favorecer a boa regulação da vida frente aos desafios existenciais.
Em primeiro lugar, cabe afirmar que as mudanças, em geral, podem ser de dois tipos: simbólicas e estruturais.
As mudanças simbólicas referem-se aos elementos que se modificam esporadicamente e que não influenciam diretamente na constituição moral, espiritual e emocional. Elas se revelam pelas configurações exteriores e conquistas de ordem material. Por exemplo: troca de um carro, corte de cabelo, mudança de disposição de mobiliário na casa, estilo de vestimenta e outros.
Já as mudanças estruturais provocam nova qualidade de vida. Interferem, necessariamente, na intimidade da pessoa, na conjugação de valores, no angariar de novos relacionamentos. Por exemplo: mudança religiosa, novas amizades etc.
De qualquer forma, independente do fato de serem mudanças simbólicas ou estruturais, certo é que as mudanças são oriundas de crises e provocam crises. Essa argumentação é clara porque toda mudança é um convite a deixar-se o seguro e estável para adentrar o terreno do incerto e gelatinoso. Pessoa alguma gosta de deixar a sua posição de conforto para abraçar o inusitado. E dessa constatação, surge uma pergunta: por que resistimos às mudanças?
A resposta, óbvia, se caracteriza pela desmotivação que se tem para enfrentar o novo. E aqui, vale a máxima de Machado de Assis: “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”.
Assim, as mudanças são provocadas por quatro princípios:
1. O princípio da liberdade subjetiva – quando a pessoa, por iniciativa própria escolhe mudar;
2. O princípio autocrático – um impõe a sua vontade e os subalternos ou oprimidos se submetem;
3. O princípio aristocrático – um grupo pequeno impõe sua vontade sobre um grupo maior, submetendo-o;
4. O princípio democrático – a maioria impõe a sua vontade sobre o grupo vencido em determinado pleito.

Diante dessas sucintas considerações, podemos afirmar que todos somos seres desejantes de mudança. Desejamos, inclusive a mudança do outro.
Mas, finalmente, ao considerar as mudanças nesse texto, fico ainda com as reflexões de Rubem Alves ao afirmar que as “razões da cabeça não fazem as pessoas caminhar, o que impulsiona as pessoas é justamente as razões do coração ”. Essa tese pode ser usada no intuito de se compreender que toda e qualquer mudança somente ocorre quando se é movido sentimentalmente para um determinado fim. Somente assim as pessoas sentem-se mais à vontade para realizarem o desafio proposto.
Um outro fator que Alves aponta é justamente o que concerne à relação de amor, muitas vezes, inexistente entre o interlocutor e os que estão do outro lado. Quando ele se refere à situação eclesiástica, expressa que pastores e pastoras, antes de dizerem qualquer coisa, de anunciarem sua verdade, de viverem uma vida de serviço e de bondade, de projetarem mudanças precisam ser profundamente amados. Segundo Alves, “Depois que estes laços de amor e confiança forem estabelecidos, as palavras deslizam com muita facilidade” . Os relacionamentos só podem ser fortalecidos e as mudanças somente poderão ocorrer se houver uma fluência em amor.
Fecho essa reflexão com a Bíblia que diz: “Porque eis que vêm dias, diz o Senhor, em que mudarei a sorte do meu povo de Israel e Judá, diz o Senhor; fá-los-ei voltar para a terra que dei a seus pais, e a possuirão”. Jeremias 30.3.
Portanto, além do fato de sermos seres mutáveis, do fato de precisarmos de mudanças e delas serem frutos de crises e provocadoras de crises, faz- se necessário afirmar que a espiritualidade da mudança é oriunda de um bom relacionamento com o Senhor. É Ele quem nos acompanha em meio a sorte. É Ele quem direciona a vida em sinergia. É Ele que provoca nossa ação em vias de mudanças.