Pages

segunda-feira, 29 de março de 2010

Quem é Jesus Cristo para você? Reflexões pascais

Este singelo texto objetiva abordar alguns trechos do livro: Quem é Jesus Cristo para você, de autoria de Jürgen Moltmam. Este autor provoca algumas reflexões interessantes sobre o movimento da paixão, morte e dor de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Neste período de Páscoa, entendo ser vital pensar sobre os eventos que envolveram o nazareno em seus últimos dias, com a finalidade de provocar em todos nós a ampliação da dinâmica da fé. Infelizmente, vivemos tempos de afrontas e violências desumanas. Em meio ao caos de nossas relações interpessoais, perguntamos, muitas vezes, por Deus. Onde Ele está? Por que não se move? Acho que o ponto de vista de Moltmam sugere-nos posicionamentos interessantes.

1. O SOFRER E A QUESTÃO DE DEUS
A fé em Deus e o ateísmo encontram suas raízes na dor de sofrer sem sentido. Será que Deus é um poder de destino cego e insensível? As opiniões a esse respeito são assim formuladas porque as pessoas estão em vias de tornarem-se insensíveis também.
A pergunta “como Deus pode permitir isso?” é a pergunta do expectador. A pergunta que Moltmam sugere, porque equilibrada é: “Meu Deus, onde está você?”
A questão da teodicéia (justificativa divina frente ao sofrimento) determinará a qualidade da minha fé: Deus é apático à realidade ou misericordioso?

2. A PAIXÃO DE CRISTO
No ponto central de nossa fé está a paixão de Cristo. O Cristo apaixonado é o protótipo de uma surda resignação ante ao sofrimento. Por certo, a vida sem paixão é uma pobreza. Moltmam aponta que há duas estações para entendermos a paixão de Cristo, a saber: o Getsêmani e o Gólgota.

No Getsêmani: A história da paixão começa na Galiléia quando Cristo decide ir para Jerusalém. Quando de sua entrada em Jerusalém, a convicção dos romanos e judeus levou-os a pensar que o homem de Nazaré era perigoso demais. A solução seria então matá-lo.
Embora a história de libertações seja marcada pelo martírio de homens e mulheres, em Cristo, ocorre uma situação inusitada: em meio à turba de pensamentos, mediante o sofrer, ele começa a sentir medo e angústia. No jardim, Jesus não queria somente a companhia de Deus como em outras vezes, mas também o abrigo na companhia dos amigos. Mas abrigo contra o que? Abrigo contra o sofrimento por Deus!
Alguns medos tomaram conta de Cristo: a. o medo da dor inerente ao ser humano; b. o medo do filho frente ao abandono do Pai; c. medo pelo Pai: Cristo angustiava-se pelo Reino do Pai. O abandono do Pai foi o cálice que Cristo pediu para ser afastado. A luta no Getsêmani, como evidenciada na Bíblia de Lutero, foi a luta de Cristo com a experiência do abandono de Deus.

No Gólgota: É a outra prece, melhor dizendo: um brado desesperado a Deus (Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?). A percepção de que no centro da fé cristã estão essas últimas palavras de Cristo na cruz, nos deixam muito incomodados. Tenta-se até abrandar os seus efeitos, o que não é possível, pois o grito continua a ecoar na história. De alguma forma, ele é importante para nossa fé.
A idéia de que Cristo teria recitado todo o Salmo 22 é equivocada, afinal de contas, o Salmo termina com agradecimento pelo livramento. O grito é a sensível manifestação do abandono de Deus. Por certo, Cristo provou a morte por todos nós e somente na cruz não chama Deus confiantemente de Pai.
A partir dessa singular experiência de Deus que é também a nossa experiência, pode-se afirmar: porque Cristo sofreu tudo o que nós sofremos e experimentou tudo o que é possível em relação a nossa existência e sofrimentos, ele se torna nosso irmão, o amigo a quem podemos confiar tudo. No cerne desta argumentação está a pergunta: Deus abandonou seu Filho no momento mais crucial de sua existência?

3. A TEOLOGIA DA CRUZ
Será possível encontrar uma resposta à questão que se impõe ante ao brado de Cristo e a experiência do abandono de Deus?
Moltmam sinaliza: conforme Paulo e João, Deus o entregou por nós (João 3:16 e Romanos 8:32). Paulo também aborda que a entrega foi vontade do Filho (Gálatas 2:20). Mas então, Deus o deixou sozinho? De forma alguma, pois quando o Filho morre no abandono da cruz, também o Pai sofre o abandono de seu Filho: os dois sofrem. Cristo sofre a morte na cruz e Deus sofre a morte de seu Filho.
Se Deus estava em Cristo, então o sofrimento de Cristo é também o sofrimento de Deus (II Coríntios 5:19). Esta afirmação fica evidente também na conhecida informação joanina: Eu e o Pai somos um!
A resposta à pergunta formulada anteriormente é: Deus está junto, Deus sofre junto. Na entrega do Filho, está a entrega do Pai. Mas, então, para que tudo isso?
Segundo Moltmam, este cruento acontecimento possui duas respostas: para Deus estar ao nosso lado e para Deus estar por nós em nossa culpa, ou seja, Deus assume solidariamente o nosso lugar.
Em outra perspectiva, na paixão, Cristo perde sua identidade de Mestre, pois seus discípulos se afastam; perde sua identidade judaica pois os sacerdotes o entregam à Roma e perde a sua vida quando do flagelo e massacre do seu corpo.
Aqui se põe uma questão crucial para a teologia: “Se Deus vai onde Cristo está, se Deus está em Cristo, então Cristo traz a comunhão de Deus àqueles que são humilhados e aniquilados como ele”. “Sua cruz está irmanada entre nossas cruzes como sinal de que Deus mesmo participa do nosso sofrimento e carrega nossas dores” (p. 42). E ainda, segundo Dietrich Bonhöeffer: “Só Cristo que sofre pode ajudar”.

Moltmam afirma, ainda, que a expiação foi necessária. Sem o perdão da culpa, o culpado não consegue viver, pois ele perde todo respeito-próprio. Isso quer dizer que Deus carrega o pecado do povo para reconcilia-lo consigo. Deus transforma a dor e o pecado humano em sua dor e seu pecado, expiando-os. A liberdade do crente somente é possível por causa de Cristo. Aqui reside o axioma da paixão: sofrimento e amor ardente. Entretanto, a comunidade primitiva somente conseguiu viver a apatia, talvez pela impossibilidade de conviver com a noção de sofrimento. De igual modo, assumiu a perspectiva de que Deus sofreu, dando salvação, proporcionando assim a imortalidade, portanto a incapacidade de sofrer.

4. A PRÁXIS DO SEGUIMENTO DA CRUZ
É preciso compreender práxis como vida, não somente como ação humana. Quem sofre sem sentido pensa estar abandonado por Deus, mas é vital refletir que Deus tornou nossas lutas as suas lutas. Deus não é apático. Sofre e ama. Segundo Moltmam, um Deus todo-poderoso que não pode sofre é pobre, porque não pode amar. Experimentando o sofrer do crucificado, deparamo-nos com o consolo de Deus.
Isto porque o crucificado não é só uma pessoa, mas também um caminho. É ingressando no caminho de Cristo que se ingressa na luta da vida contra a morte.