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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Jabulani e Vuvuzela

Em todas as copas anteriores à de 2010, sempre se destacaram em cada partida os craques, as jogadas e o futebol arte. Lembro-me, por exemplo, da seleção canarinho de 1982, da Argentina de 1986 e das antológicas jogadas do marrento Maradona, do Zidane de 1998 e dos Ronaldos de 2002. Seleções e jogadores que fascinam os que são amantes do futebol. Mas a copa de 2010, na África do Sul, ficará marcada de forma inusitada pela presença e manifestação espectral de duas outras entidades: a jabulani e a vuvuzela.
É interessante perceber que as personagens que tomam o lugar de destaque nesta copa não se encontram na esfera humana. São coisas. São objetos que ganharam um status público e mundial.
A jabulani foi projetada pela Adidas e lançada oficialmente em 04 de dezembro de 2009. Ela possui 11 cores diferentes e comporta em sua insígnia os diferentes dialetos e etnias presentes na África do Sul. O significado de jabulani é “celebrar”. Ora, como é sabido, foram tecidas muitas críticas em relação a essa bola. Por exemplo, o camisa 9 da seleção brasileira disse que a bola tinha algo de “sobrenatural”. Já o camisa 1 da mesma seleção disse que a bola se parecia com aquelas que são compradas no mercado. Sintomático saber que as principais críticas surgiram de atletas que são patrocinados pela Nike, principal concorrente da Adidas.
No caso das vuvuzelas, uma espécie de cornetão, que na atualidade é confeccionada em plástico, com aproximadamente 1 metro de comprimento e que faz muito barulho, o fator inusitado também é presente. A vuvuzela é uma herança das primeiras tribos sul-africanas que a utilizavam para convocar reuniões. Independente dos dados que podem dar uma melhor compreensão da historicidade da vuvuzela, certo é que sua soma em um estádio de futebol pode gerar desconforto entre os atletas. Enquanto escrevo essa crônica, assisto o jogo entre Holanda e Eslováquia e é impressionante o fato de que o som das vuvuzelas é ininterrupto. Se a atenção ao jogo não filtrar o som dos cornetões, acaba-se ficando irritado.
Uma coisa é certa: essa será a copa da jabulani e da vuvuzela.
Tenho uma intuição de que o desprezo e a admiração por esses dois objetos possuem ligações com as dimensões relacionadas às nossas mais profundas manifestações humanas. Por exemplo, a característica inusitada da jabulani tem a ver com a nossa própria vida. Existem situações que não podemos controlar. Definitivamente, nem sempre podemos dar a direção querida para todas as manifestações da nossa vida. Às vezes, damos uma direção, mas sai completamente ao contrário. Há uma inegável manifestação do acaso em nossa vida. A jabulani, assim como a vida, pode pregar peças e trair até mesmo os mais confiantes.
Já a vuvuzela possui essa capacidade de expandir sentimentos e emoções gerados em algum evento. Percebo que a alegria dos torcedores se expande no som contínuo que não para, não cessa, atormenta... Nem sempre temos um cornetão em mãos, mas é certo que quando somos aturdidos por algum evento que nos provoca grande entusiasmo, tocamos nossas mais singulares vuvuzelas interiores. Todos temos vuvuzelas interiores que se caracterizam como expansão de nossas mais internas alegrias.
Enfim, entendo que o nosso “encantamento” com a jabulani e com a vuvuzela se dá, justamente, pelo fato de que esses símbolos evidentes na copa da África do Sul, dialogam com algumas estruturas internas de nossa existência, a saber: acaso e expansão dos sentimentos. E, independente dos resultados que advirão dos jogos da copa, somos incitados a “celebrar” com entusiasmo e fazer barulho, muito barulho.