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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Coar os Mosquitos e Engolir os Camelos

Não gosto da hipocrisia. Não gosto de pessoas que dizem ser o que não são ou fazem aquilo que não acreditam. Por isso, pago o preço da busca por uma coerência entre palavras e ações. Acho que Jesus também tinha problemas com a hipocrisia. No capítulo 23 do Evangelho de Mateus, há uma longa argumentação contra os que pregam e não vivem. Ora, o antigo adágio “coar mosquitos e engolir camelos”, citado por Jesus no embate com os fariseus e escribas denota a intencionalidade do mestre de Nazaré em criticar a hipocrisia. Jesus era um veemente combatente da hipocrisia. Aliás, em muitas outras narrativas neotestamentárias, a crítica à hipocrisia se exalta de forma categórica. De fato, a hipocrisia é uma atitude evidenciada por gente que mascara ou fantasia a sua própria vida real, não se assumindo como é ou como se encontra. Em geral, o hipócrita é o que se apega, tão somente, à aparência em detrimento da essência. Nessa perspectiva, os dados à hipocrisia falam mais do que fazem e fazem menos, muito menos do que dizem. O pior, dentro da perspectiva que estamos apontando, é que o hipócrita esconde muito das coisas que faz. O hipócrita faz coisas escondidas, mas não assume que as faz. Ora, todos temos os nossos quartos obscuros onde escondemos nossas mazelas, entretanto o hipócrita sequer admite o fato de ter mazelas. Num sentido mais aprofundado, portanto menos lato, a hipocrisia se estabelece realmente na lógica do adágio citado por Jesus. Na realidade, todos somos tentados a coar mosquitos e engolir camelos. Uma breve análise da vida social revela-nos que a todo tempo estamos aceitando dimensões escabrosas e injustas, bem como nos apegando a comentários sobre questões triviais e próprias da subjetividade de cada pessoa. Assim, apontamos o dedo com muita facilidade para as pessoas e as acusamos, na maioria das vezes, indevidamente. Isso ocorre porque nosso olhar fica preso a besteiras, próprias da subjetividade e liberdade de cada pessoa. Por outro lado, aquilo que é importante e significativo e que pode trazer uma maior qualidade de vida, fica no limbo, ou seja, côa-se mosquitos, coisas pequenas e subjetivas inerentes a cada pessoa, e engole-se camelos – dimensões comunitárias ligadas à prática do bem viver e da justiça social. Esse adágio combina com o ensinamento de Jesus que expressa que hipócritas são os que tentam tirar o cisco que há no olho do irmão enquanto há uma trave em seus próprios olhos. Realmente, é cruel essa atitude marcada pelo apontamento do dedo ao outro sem a percepção de si-mesmo. Pior ainda é o fato de que quem acusa o faz com amplo moralismo. Ora, os moralistas são pífios e insanos, porque não se auto-avaliam. Julgam e condenam os outros, mas ao fazerem isso, estampam inveja à coragem do outro. Confesso ficar enojado frente aos hipócritas que possuem asco frente aos mosquitos, mas saboreiam com gozo os camelos. Como se percebe, os adjetivos que acompanham os dados à hipocrisia são os piores. De fato, Jesus aponta que a atitude moralista parte, infelizmente, dos religiosos da época. Gente que ao invés de deturpar, criticar, apontar e condenar deveria, tão somente, existir para amar e abençoar. Deus tenha piedade dos hipócritas. Deus os ajude a enxergarem suas próprias mazelas ao invés de olharem os outros. Deus derribe dos santuários os que dizem e não fazem. Deus anule os que atam fardos pesados e difíceis de suportar. Deus nos livre dos que realizam a obra somente para serem vistos pelos outros. Deus torça o nariz em relação àqueles que fecham as portas do reino dos céus aos semelhantes. Deus tire dos caminhos dos que almejam a justiça, todos os hipócritas que coam mosquitos e engolem camelos. Para estes, fica o vaticínio de Jesus: “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?”

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