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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Tetelestai - Está Consumado

Texto Bíblico: João 19. 28-30

28 Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: “Tenho sede”.
29 Estava ali uma vasilha cheia de vinagre. Então embeberam uma esponja nela, colocaram a esponja na ponta de um caniço de hissopo e a ergueram até os lábios de Jesus.
30 Tendo-o provado, Jesus disse: “Está consumado!” Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito.


Eu sinceramente acredito que todos nós temos uma apreciação especial pelo evangelho de João. Essa nossa apreciação não diminui em absolutamente coisa alguma o valor dos demais evangelhos, chamados também de evangelhos sinóticos - Mateus, Marcos e Lucas.
Entretanto, o evangelho de João possui um lugar especial em nossa devoção e a temática dorsal que se evidencia nele toca, de uma forma precisa, em nossa espiritualidade pascal. Ora, o referido evangelho, escrito aproximadamente no ano 100 da nossa contagem comum, nasce e se constitui a partir do pilar fundamental da nossa fé, a saber, a ressurreição. Além de se pontuar como uma crítica ao gnosticismo e ao docetismo, que pregavam que Jesus não sofreu em carne, pois era um espectro, uma espécie de fantasma, o evangelho de João estabelece as suas narrativas com base num fato: O Cristo veio em carne e ressuscitou. A evidência do aspecto humano de Jesus, no nosso texto em questão, fica clara na expressão: Tenho Sede!
Esse fato, a ressurreição, evidencia a tonalidade de nossa crença. Indubitavelmente, Cristo ressuscitou e isso é ponto pacífico para todos nós. Como bem nos lembra o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15. 14: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé”. Mas não podemos estabelecer a nossa fé somente nesse fundamento pascal. Existem outros que, unificados, constituem-se naquilo que eu chamaria de pilares da espiritualidade. O primeiro é a ressurreição de Cristo, o segundo são os ensinamentos de Jesus ao povo e aos discípulos e o terceiro, igualmente importante, é o evento da paixão e morte de Jesus. Infelizmente, não damos tanta importância a estes últimos elementos que compõem os pilares porque tendemos mais à evidenciação da ressurreição. Analogicamente, seria como se víssemos um filme, diga-se de passagem, já visto e nos preocupássemos, tão somente, com a final do mesmo. Ressaltar somente o final do filme é, no mínimo, ignorar toda a importância do enredo. E, no caso do filme como na vida e missão de Jesus, o enredo não é menos importante que o final do filme. Dessa forma, quero dar relevância ao evento da paixão, pondo-o em lugar de destaque.
Parto da premissa de que Jesus escolheu doar-se em favor de cada um de nós. A entrega na cruz foi uma decisão daquele que viveu neste mundo como o mais sublime filho de Deus ou como aquele que encarnou o amor de Deus de uma forma viva e real. Inclusive, no Getsêmani, segundo Mateus 26. 36-46, a essência da filiação ao Pai se tornou evidente e nas três orações que fez, mesmo diante do sono silencioso dos discípulos, Jesus pediu o afastamento do cálice e também a manifestação da vontade de Deus. A situação vivida por Jesus no Getsêmani não tem a ver com o cumprimento cego às ordenanças de um Deus cujos propósitos estão pré-estabelecidos, mas com uma atitude relacional que envolve respeito mútuo e decisões difíceis. Tanto isso é coerente que o Pai não emite respostas a seu filho.
Então, como um ato genuíno de real escolha, Jesus resolve demonstrar ao mundo até que ponto pode chegar o amor de Deus. Como dissemos, não se trata de um encaminhamento cego aos propósitos de um ser superior, mas de uma decisão consciente sobre o que realmente importa e sobre o que realmente é necessário. Jesus morreu por nós, tão somente, por amor e não por obrigação.
É nesse contexto que podemos e devemos entender as palavras recitadas por Jesus na cruz do calvário. Dentre as quais nos deparamos com a expressão tetelestai – está consumado. Tetelestai era a expressão presente nos carimbos que marcavam escravos adquiridos nos diversos mercados a céu aberto. Em outras palavras, queria dizer que a mercadoria, no caso escravos, estava liquidada. Na boca de Jesus, a expressão ganha uma conotação teológica, marcada pela idéia de que todos os seres humanos, escravos do pecado, a partir de Jesus, encontram a liberdade e a possibilidade de viver a vida sob os auspícios da maravilhosa graça de Deus. E nesse ponto em especial, precisamos evidenciar uma hermenêutica que tenha a ver com a nossa espiritualidade nesse momento atual, bem como a nossa forma de ser igreja.
Em primeiro lugar, precisamos compreender que a igreja evangélica brasileira e porque não dizer, a igreja metodista precisa compreender e reaprender os sentidos embutidos na expressão tetelestai. Ora, Deus nos criou para a liberdade e confirmou a libertação na vida e obra de Jesus. Conforme o testemunho de Paulo em Gálatas 5,1: foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Dessa forma, temos que nos manter sóbrios e não nos submetermos, de novo, a jugo de escravidão. Mas eu vejo muito peso na igreja atual e em sua caminhada. Vejo o peso do autoritarismo, das campanhas financeiras travestidas de campanhas de oração e das múltiplas evidências de um projeto de santidade que não tem a ver com amizade com Deus, mas com a salvação pelas obras. Precisamos perguntar, então, sobre o que significa liberdade e se, de fato, a igreja é uma arca liberta como bem queria Martinho Lutero. Não consigo ver outro caminho para a igreja a não ser o caminho de uma liberdade marcada pela disciplina ética e pelo amor ao próximo.
Em segundo lugar, tetelestai nos convoca à convicção e à afirmação de que Cristo é o Senhor da vida. Ao afirmar que tudo está consumado, Jesus está se postando como o Kirie, o Senhor. E nesse ponto se evidencia uma outra pergunta: Temos tratado o Senhor como Senhor ou estamos transformando-o em um “garoto de recados”, carregando-o com nossas petições marcadas pela lógica do egoísmo e por nossa vontade de prosperar? Ora, a prosperidade bíblica, antes de ser a celebração mordaz das conquistas de posses e de bens, é a ausência de necessidades na dimensão maravilhosa do shalom – paz, mesmo na adversidade. Frases como “eu determino” ou “eu ordeno” enfraquecem a convicção de Cristo como Senhor da vida e o relegam a um lugar equivocado, onde a fé nada mais é que um mero formalismo de expressões e jargões evangélicos cantados ou aplicados aos parabrisas de muitos carros. Ao assumirmos tetelestai e ampliarmos nossa convicção de que Cristo é o Senhor, nos reposicionamos, numa práxis bíblica, como servos e servas, pessoas que existem, tão somente, para se dedicarem aos outros.
Em terceiro lugar, a expressão tetelestai nos convoca ao silêncio da oração e à reclusão ao recôndito do coração. Diante do brado do crucificado, não temos outra opção a não ser a de nos sensibilizarmos com o sofrimento injusto do justo, da morte criminosa do sem nenhum crime, da violência sobre o corpo e a exposição daquele que só espargiu o sublime amor. Tal silêncio e reclusão visam, tão somente, fazer-nos comprometidos com o sofrimento de milhares de gentes que estão ou se tornam atormentadas por sofrimentos voluntários e involuntários. Ora, os sofrimentos voluntários são decorrentes das escolhas pessoais e das escolhas da humanidade. Já os sofrimentos involuntários são decorrentes de uma dimensão que nos não gostamos muito, conhecida como acaso. Quem definiu de forma brilhante as dimensões do voluntário e do involuntário foi o filósofo cristão Paul Ricoeur. Na verdade, nossa grande inquietação reside na dimensão do involuntário. E essa inquietação vem acompanhada da seguinte pergunta: por que Deus não intervém diretamente e com mais vigor diante de situações complexas e difíceis? No recente livro de Philip Yancey, de título Pra que serve Deus. Em busca da verdadeira fé, Yancey, numa direção específica argumenta: “A pergunta ‘Pra que serve Deus?’ é uma pergunta aberta cuja resposta Deus investiu em nós, seus seguidores. Nós somos os que foram chamados a mostrar uma fé que tem importância para o mundo que observa.
Diante da pergunta pra que serve Deus? Jesus respondeu: tetelestai e desta forma, mostrou para o mundo a dimensão do amor de Deus e a fé que move montanhas, abrindo múltiplas possibilidades de nos entendermos e de nos posicionarmos perante o mundo. Diante dos sofrimentos, nossa atitude e postura são respostas de Deus para as pessoas. Mais do que palavras de efeito, precisamos viver ações solidárias marcadas por verdades encharcadas de amor, o mais perfeito.
Finalmente, podemos efetivar algumas considerações, dentre as quais destacamos:
a. Jesus doou-se por nós para que compreendêssemos a grandiosa dimensão do amor de Deus pelo mundo. Como evidenciado em João 3.16, Deus amou o mundo e deu Jesus a este, não para morrer, mas para viver o amor;
b. A expressão tetelestai é o brado teológico que afirma o fato de que a escravidão não mais existe. Jesus foi à feira livre e comprou as pessoas para si. Carimbou-as e lhes garantiu um jugo suave e um fardo leve;
c. A igreja precisa reaprender o significado de tetelestai e viver a tônica da liberdade marcada pela ética e pelo amor. Santo Agostinho em suas confissões sugeriu uma expressão simbólica: Ama e faze o que quiseres, ou seja, quando o amor está no ar, tudo se torna mais significativo;
d. Uma bandeira precisa ser levantada urgentemente, e essa bandeira contém a inscrição: Jesus é o Senhor! Nós, os servos e servas! Ou assumimos essa postura perante o mundo e de forma mais particularizada perante a nossa cidade de Juiz de Fora, ou seremos, nada mais, nada menos que um sino que badala e não provoca mudanças;
e. Temos que ressaltar a sensibilidade em nosso coração. Nós não podemos aceitar em nossas comunidades a indiferença e o desrespeito, mas assumirmos, em gênero, número e grau o fato de que o sentido de nossa vida está em não nos alhearmos aos sofrimentos da sociedade e do mundo. Nessa direção, em um sermão pregado em Santa Maria, Oxford, em 1744, Wesley, lendo o texto de Atos 4.31-36, enfatizou que os apóstolos reunidos em oração sentiram o lugar em que estavam tremer e todos ficarem cheios do Espírito Santo, e, “com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus”. “Wesley ressalta que, nos versos seguintes, não há menção aos sinais extraordinários e às línguas que acompanharam o primeiro Pentecostes, mas antes os sinais, que acompanharam esse encher do Espírito, resultaram do fato de que era um coração e a alma, o que levava a um mútuo partilhar dos recursos. Por terem sido tomados por uma evidência do amor de Deus o Pai, e de seu amor aos ímpios, através do Filho, agora aceitos no Bem-Amado”, foram capacitados estender esse amor aos outros. ‘Os que assim amam a Deus não podem deixar de também amar a seus irmãos, não em palavras somente, mas em obras e em verdade’. A igreja de Jerusalém alcança e ‘alimenta os famintos, veste os nus, auxilia os órfãos e os peregrinos, visita e ajuda os que estão enfermos ou presos e dá todos os bens para sustento dos pobres’”. Runyon. A Nova Criação, p. 231.
Assim, num dia como esse, marcado pela evidenciação memorial dos brados e da morte de Jesus, somos, uma vez mais, convidados a nos postarmos perante a cruz. Não para a singela contemplação poética, mas para sentirmos o que o crucificado sentiu ao doar-se e bradarmos em alto e bom som ao quatro cantos da terra: tetelestai e agirmos na transformação do mundo e da sociedade, expressando: está consumado.