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quinta-feira, 28 de abril de 2011

SABERES E SABORES DA PÁSCOA


Os cristãos celebram a Páscoa anualmente. Essa é uma data memorável que edifica a vida e faz a gente renascer na esperança. O evento pascal, que vai além da celebração do domingo é, em nossa concepção, a marcação de um tempo de saberes e sabores.

Saberes

A Páscoa trás no arcabouço de suas mais precisas definições múltiplos saberes que orientam a vida e todas as demandas relacionais das pessoas. Esses saberes têm a ver com o sentido da palavra hebraica “pessach’. Ora, “pessach” significa, por um lado, o ato de manquejar ou de dar pequenos saltos, mas também, significa passagem. Independente da dualidade da definição, importa afirmar que a dimensão do que concebemos por Páscoa, leva-nos, necessariamente a pensar em algo que ocorre em um caminho.
Essa palavra ganhou um peso importante na configuração do evento fundante da nação Israel, a saber, o êxodo. O processo que culminou com a fuga dos pré-israelitas da dominação empregada pelo Egito, conhecido como êxodo, foi celebrado com a imolação de um cordeiro e a celebração familiar num ato memorial de suma importância para as crianças e para os anciãos. Nesse processo de libertação, a celebração familiar era também um culto ao Deus da vida.
Há outro saber a ser evidenciado nesse período da Páscoa: a ressurreição. Ora, de antemão, podemos afirmar que refletir sobre a ressurreição é ato de fé. Sabemos que a ressurreição é a base da fé cristã. É através da ressurreição que compreendemos melhor a dimensão de Deus amor, pois Ele não aceitou a morte de seu Filho e o ressuscitou. No arcabouço da ressurreição nos deparamos com a esperança e, dessa forma, nos vemos diante de janelas abertas em situações complexas. O evento da ressurreição nos ensina a compreender que o fim pode não ser o fim, e que há sempre novas possibilidades que ocorrem pela mão de Deus. A ressurreição é um importante saber para os cristãos. É a passagem do caminho tortuoso nas areias escaldantes do deserto para a trilha em mata atlântica à beira mar.

Sabores

Páscoa também é composta de sabores. Não somente os saborosos ovos de chocolate e os deliciosos quitutes do almoço de domingo, mas também os elementos que compõem a memória do povo judeu e de outros povos de tradição cristã. O Rubem Alves foi quem disse: “dize-me o que tu comes e eu te direi quem és”, ou ainda aquela outra máxima muito evidenciada por ele mesmo: “Como, logo existo”, numa clara analogia ao cogito de Descartes. Indubitavelmente, o que nós comemos tem a ver com a nossa experiência existencial e com a cultura que vivemos. Tenho tido a satisfação de andar por esses brasis e saborear suas culturas e povos. Ainda não tive a oportunidade de saborear culturas além-mar, tampouco saborear as tipicidades dos nossos “hermanos”. Entretanto, em breve confirmarei, in loco, os sabores que constroem gentes e humanidades por esse mundão de meu Deus.
Assim, diante dessas singelas argumentações, preciso afirmar que os sabores da Páscoa, para mim, têm a ver muito mais do que com chocolate, coisa que gosto muito, mas com uva, vinho, pão e peixe. Uma celebração autenticamente pascal se estabelece mediante os sabores simples e inigualáveis desses elementos. Acho que as nossas celebrações deveriam vir acompanhadas de múltiplos tipos de uvas: rosadas, Itália, rubi, moscatel; regadas com vinho carbenet sauvignon, de preferência; pães, desde os ázimos, passando pelo tradicional pão francês ou pão de sal, até aqueles que são apelidados com a singela metáfora ‘sonho’. E, por fim, peixes: a pescada frita, a moqueca capixaba de badejo ao molho de camarão muitos camarões, o filhote com azeite de dendê, a pescada amarela, a traíra sem espinhas e, até mesmo, a sardinha em lata na mesa de um boteco.
A Páscoa é, assim, um tempo de saberes e sabores. Eu, particularmente, não sei qual o melhor. Gosto dos dois. Gosto dos saberes e gosto dos sabores. Mas eu gosto mesmo é de celebrar as passagens da vida com vistas a uma dinamicidade da esperança. E a Páscoa, pelo menos em minha concepção, é um período convidativo para isso.