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sábado, 14 de maio de 2011

Considerações aos Metodistas Brasileiros


Juiz de Fora, Páscoa de 2011.



Aos metodistas brasileiros,

Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando com Deus.
Gamaliel – Atos 5. 38-39


Essa circunstância, portanto, não é uma desculpa adequada para não reconhecer a obra de Deus; especialmente se consideramos que sempre aprouve a Deus realizar alguma grande obra sobre a terra, quando mesmo nos tempos mais remotos, ele saiu relativamente do modo comum; seja para excitar a atenção de um grande número de pessoas que, de outra forma, poderiam não nota-lo, seja para separar o orgulhoso e soberbo de coração daqueles de espírito humilde e singelo; os primeiros, conforme ele previu, confiando em sua própria sabedoria, tropeçariam naquela pedra e se quebrariam; ao passo que os últimos, inquirindo com sinceridade, logo reconheceriam que a obra era de Deus.
João Wesley


Prezados irmãos e irmãs,


Ao longo de 18 anos de dedicação exclusiva à Igreja Metodista, passando pela primeira e segunda designação junto às Igrejas Metodistas de Conselheiro Lafaiete – MG e Vila Galvão - SP, tendo por primeira nomeação a Igreja Metodista de Vila Planalto – SBC, seguindo-se as nomeações para as Igrejas Metodistas em Goiabeiras – ES, Central em Belo Horizonte, Benfica em Juiz de Fora, Pastoral do Instituto Metodista Granbery, Jardinópolis, e atualmente Bela Aurora, todas essas seis últimas ligadas à IV Região, sendo extremamente grato a Deus pela oportunidade de servi-lo na dimensão do Reino nestas distintas comunidades de fé, sob a orientação do Espírito Santo, sempre colocando à disposição meus dons e talentos para a equiparação do corpo de Cristo, me apresento aos metodistas brasileiros, na condição de membro da Igreja Metodista, para tecer algumas considerações sobre a dinâmica de acolhimento de irmãos e irmãs metodistas da cidade de Belém do Pará, região Norte do país.

Sei que a situação que envolveu esse acolhimento é inusitada e, talvez, tenha ocasionado alguns constrangimentos para muitas pessoas, mas, por uma razão óbvia, aprendi desde cedo, os caminhos inerentes à mística do ministério pastoral e fui ensinado pelos meus pastores o significado do apoio e acolhimento ao diferente, mesmo o muito diferente. A máxima “Pensar e deixar pensar”, tão fundamental para a dinâmica de uma Igreja conciliar, ou que se pretende conciliar, máxima esta exorcizada por muitos na atualidade, sempre serviu, pelo menos na concepção de muitos metodistas, como um paradigma para a fundamentação relacional, tão cara aos princípios mais basilares do Evangelho.

Aprendi, também, a compreender as pessoas a partir de seus pontos de vistas. Como lembra-nos Leonardo Boff: “Todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. (A águia e a galinha. Petrópolis: Vozes, 2008). Nessa lógica, sempre parti da premissa que acordos e conciliações são possíveis, mesmo sabendo que essas possibilidades perpassam os caminhos ásperos e sedimentados da discussão. Os beócios preferem o caminho da ditadura e da determinação, muitas vezes traduzida pela metáfora da “visão”.

Aprendi, por fim, a respeitar os meus líderes, mesmo quando não concordava com eles. Sofri, muitas vezes, fazendo coisas que nada tinham a ver comigo. Entretanto, não quero mais fazer ou realizar coisas que não são compatíveis com o que penso em relação ao Evangelho. O abuso de poder, por parte de líderes não pode ser acolhido no coração de quem quer que seja, principalmente das pessoas ligadas ao povo chamado metodista.

O Evangelho me incita a viver outra lógica, marcada por ideais tais como: a. felicidade como resultante da perseguição por causa da justiça; b. ser último para ser primeiro; c. humilhar-se para ser exaltado; d. se tornar como criança ao invés de ser adulto na busca pelo poder; e. amar aos inimigos ao invés de persegui-los; e. perder para ganhar. Acontece que, por uma razão que me é estranha, esses princípios somente são cobrados daqueles que abraçam a fé evangélica e se dedicam voluntariamente aos princípios desta ou daquela denominação, enquanto que os líderes ficam num patamar diferenciado. Para estes, o Evangelho somente serve para os outros. Para mim, é inconcebível a ideia de um(a) pastor(a) ou bispo(a) não pedir perdão, quando de um erro ou palavra mal posta, à um(a) irmão(ã) em Cristo.

Tenho consciência de que na atualidade, líderes, visando a tranquilidade do arraial impõem sua visão e se afirmam diante da obediência dos liderados. Não poucos(as) pastores(as) têm vociferado em seus púlpitos palavras de abuso, determinando uma obediência muda para que os membros da igreja não se tornem feiticeiros, numa grotesca e fundamentalista alusão a 1 Samuel 15.23. Ao contrário disso, sempre busquei o caminho da elegância e da educação, dando minha resposta, tão somente, através da dedicação e do serviço, com os olhos fitos nos princípios da justiça, mesmo quando era derrotado em decisões conciliares ou em qualquer tipo de reunião. A vontade alheia sempre foi por mim respeitada. Aliás, somente consigo compreender a missão na Igreja e a teologia, ou o que se requer dela, na sua forma encarnada, como práxis, diaconia, serviço, conciliações, justiça e Reino. Sempre me esmerei no intuito de ser realmente pastor. De ser um companheiro e amigo nas horas das alegrias e também das dificuldades.

Pastoreio, assim, as ovelhas do rebanho que não é meu, é de Deus. Visito-as e acolho-as em suas possíveis crises existenciais.
Por esses motivos apresentados, nunca me imiscuí de acolher pessoas que se achegavam com o coração aberto para a transformação ou a busca por uma nova vida, uma nova aurora. Inclusive, desde o momento que aceitei o desafio de pastorear a Igreja Metodista de Bela Aurora, tive a oportunidade de acolher irmãos e irmãs de outras localidades da própria cidade de Juiz de Fora. Acolhi-os com amor, entretanto, na contramão de tudo o que aprendi, ouvi de alguns pastores expressões tais como: “Pode levar. Deus tira um e manda dez”, ou então: “Só quero aqui os que estão na visão”. Muitas vezes, tais expressões vinham acompanhadas da frase: “O Bispo deu liberdade pra gente fazer assim”, frases que expressam uma particularidade que nunca considerei e não vou considerar porque é pífia.
Dessa forma acolhi 42 membros oriundos de outras Igrejas Metodistas da cidade de Juiz de Fora e um membro da cidade de São Paulo, que no passado fora pastor metodista. Todos, muito queridos por mim. Hoje, sou grato a Deus pela oportunidade de ter essas pessoas ao meu lado. Toda essa situação fez de Bela Aurora uma Igreja atípica, bastante similar a outras comunidades presentes no Brasil. Inclusive, recentemente ouvi de algumas pessoas, cujos nomes eu não citarei, que a Igreja Metodista de Bela Aurora se tornou uma Igreja de pessoas decepcionadas ou descontentes. Uma Igreja de rebeldes. Palavras que repudio embora reconheça a veracidade da constatação. Repudio porque nesses comentários estão as verdades sem o amor cristão. Mas, por outro lado, reconheço a veracidade porque acolhi ao longo desse tempo pessoas que ficaram tristes por causa dos rumos que seus pastores deram ao kerigma cristão. Infelizmente, essas pessoas foram deslocadas de seus respectivos nichos eclesiásticos por pressão, coação, opressão, abuso religioso e indiferença dos pastores e pastoras. Paro por aqui, pois a lista ficaria elástica demais. Felizmente, estas pessoas não deixaram de ser metodistas. Elas têm sido pastoreadas por mim, até que o Senhor da vida me permita fazê-lo. E faço isso com muito esmero e dedicação, com a plena visualização de minhas particularidades, contradições e deficiências. Tenho aprendido a ser e me revelar como realmente sou, sem medo ou hipocrisia.

Confesso, entretanto, que gostaria que fosse diferente. Eu queria que estas pessoas continuassem perpetuando a alegria de celebrar junto aos(às) seus(suas) antigos(as) amigos(as) nas suas respectivas Igrejas. Esse afastamento provocou lutos outros que ainda estão sendo elaborados. Quero somente lembrar que as causas que levaram esses irmãos ao afastamento são as seguintes:

1. Uso indiscriminado de campanhas financeiras travestidas de campanhas de vitória através da oração;

2. Excesso de pregadores de distintas denominações nos púlpitos de nossas Igrejas;

3. Obrigatoriedade de participação no encontro metodista do pacto ou encontro com Deus, para exercimento de funções junto a Igreja;

4. Aceitação indiscriminada de toda e qualquer proposta ou “visão” dos(as) pastores(as). Sobre este último aspecto, é curioso notar que na atualidade, a discordância dos leigos quanto às ideias e formas dos pastores tem a ver com rebeldia. Os chamados “rebeldes” são encaminhados para a “santa inquisição metodista”. O princípio do sacerdócio universal de todos os crentes foi completamente abolido de muitas igrejas.

Ora, o problema do autoritarismo na Igreja por parte das ordens sacerdotais não é novo e já foi denunciado por Martinho Lutero. Em suas próprias palavras: “Pois daí vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Confiam na unção corporal pela qual suas mãos são consagradas e, depois, na tonsura e na veste. Não só creem que são mais que os cristãos leigos, que são ungidos com o Espírito Santo, mas quase os consideram como cachorros indignos de serem enumerados juntamente com eles na Igreja. Por isso, atrevem-se a mandar, exigir, ameaçar, pressionar e espremer em todo o sentido. Resumindo: o sacramento da ordem foi e continua sendo uma maquinação belíssima para consolidar todas as monstruosidades que se cometeram e ainda se cometem na Igreja. Aqui desaparece a fraternidade cristã, aqui os pastores se transformam em lobos, os servos em tiranos, os eclesiásticos em mais que mundanos”. (Do Cativeiro Babilônico da Igreja. In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1989, vol. 2, p. 414). Embora os(as) pastores(as) não estejam ligados(as) à ordem numa configuração sacramental, parece que se imbuem desse espírito. Ora, é evidente o fato de que existe um grande hiato eclesiológico de características medievais na Igreja atual. Numa similar linha de raciocínio, John Wesley, que num primeiro momento era extremamente zeloso, fanático e clerical para com a Igreja, após a experiência de Aldersgate, em 1738, percebeu que mais do que razões e convicções, era necessário uma busca pela dimensão soteriológica e pelo acolhimento ao outro, na dimensão do coração aquecido, em outras palavras, um coração cheio de amor e apaixonado pelas pessoas, não mais pela Igreja. Nessa perspectiva, pastores e pastoras são pessoas com funções distintas, que evidenciam no todo de seus respectivos serviços eclesiásticos, tão somente, o amor humilde aos outros. O pastor José Carlos de Souza corrobora: “Se, pelo batismo, todos os cristãos são feitos sacerdotes, não poderiam prevalecer diferenças relativas a status ou dignidade, porquanto é impossível sustentar quaisquer privilégios com base nas Escrituras ou na Igreja Antiga. A única distinção cabível repousa na diversidade de funções necessárias para que a Igreja cumpra a sua missão (cf. Rm 12 e 1 Co 12-14), porém, isso não fundamenta nenhum direito ou prerrogativa especial. A autoridade eclesiástica é serviço, assentado exclusivamente na conveniência humana e prática. A fim de evitar a desordem e o caos, a comunidade de fé escolhe aqueles que hão de exercer, em seu nome, os ofícios que, a rigor, pertencem a todos. A ordenação é apenas o rito – jamais o sacramento – pelo qual a congregação reconhece publicamente aqueles que são chamados para o cuidado pastoral e, sobretudo, para a pregação da Palavra. Contudo, a qualquer tempo, esse encargo pode ser requerido de volta, se a comunidade assim discernir”. (SOUZA, José Carlos. Leiga, Ministerial e Ecumênica. SBC: EDITEO, 2009, p. 96). Assim, somente podemos conceber o ministério pastoral na Igreja Metodista como um espelho da comunidade. As pessoas precisam se sentir representadas pelo(a) seu (sua) pastor(a). Nessa mesma linha de raciocínio, acho que não dá mais para fecharmos os olhos a essa constatação que pode alterar os rumos eclesiológicos. Torna-se imperativo a sensibilidade. Para mim, o problema eclesiológico (estrutura, episcopado, poder, governo, pastores e leigos) é o grande nó que o próximo Concílio Geral terá que desatar, se não se ater aos joguinhos inerentes às eleições dos bispos e bispas!?!?.

A propósito, tive a oportunidade de participar do último Concílio Geral e vi, ouvi, senti e, infelizmente, participei sem comungar de um dos mais atrozes momentos da história da igreja metodista em terras brasileiras. Fiquei pasmo em descobrir ali os “reais” interesses que moviam as orações e as celebrações. Eu, inclusive, tinha conversado com um bispo informando-lhe que os burburinhos pré-concílio eram terríveis e que a Igreja seria atropelada por decisões unilaterais. Sugeri até mesmo o cancelamento do Concílio, o que não foi possível. As eleições dos bispos e da bispa foram momentos de desrespeito, infâmia, discórdias, maledicência, jogo sujo... Ouvi de um bispo, em particular, o desabafo indignado em relação a pastores que, pela frente, batiam as mãos nas costas dele e por trás, queriam a sua degola.

Sempre tive posições em relação à estrutura da Igreja Metodista. Partilhei muitas com colegas pastores e pastoras. Sinalizava e clamava por mudanças, mas contava com o fato de que as coisas fossem feitas ao meio-dia e não à meia-noite. Quando percebi, junto a outros colegas, que as questões estavam tendo uma visão unilateral marcada pela injustiça e a comentários repugnantes, busquei a oposição. Decorreu disso uma série de preconceitos em relação a minha pessoa e a difamação por intermédio de várias falácias. Por exemplo, pelo fato de ter participado de uma visita a um irmão querido na cidade de Belisário, num encontro que ficou conhecido como Encontro de Belisário, recebi vários telefonemas de amigos me perguntando sobre a campanha para bispo. Espalharam que eu havia promovido o encontro para me lançar a bispo. Só se eu fosse muito burro. Se eu quisesse assim fazê-lo, iria certamente para um grande centro. Não sou de esconder as coisas. E por causa dessa falácia, meu nome figurou em uma lista nos corredores do último Concílio Regional da Igreja Metodista da IV Região, em 2009, como nome não elegível para a composição da delegação da IV Região. Por um acaso dos céus, documentos e e-mail´s caíram em minhas mãos atestando as falcatruas que ocorreram, principalmente na sala destinada à oração. Depois de ter recebido os referidos documentos, conversei com uma pessoa que participou diretamente dos fatos e ela me confirmou o acontecido. Fiquei boquiaberto.

Resolvi, então, reafirmar minha posição perante a Igreja Metodista. Posição herdada dos anos de estudos teológicos e da convivência com líderes com certos princípios éticos. Em minha concepção, existem dois tipos de homens: os que falam e os que fazem. Quero figurar entre os segundos. Chega de palavras. Quero abraçar ações que dignifiquem o ser humano.

Por estas e outras convicções de fórum estritamente pastoral, resolvi acolher os 17 irmãos e irmãs de Belém do Pará e arrola-los como membros em nossa Igreja Metodista de Bela Aurora. Informo que, além desses, ainda serão acolhidos diversos adolescentes e crianças, que ainda não professaram a fé. A abertura desse processo de acolhida se deu justamente pelo precedente que abri ao acolher o ex-pastor da Igreja Metodista que, como disse, mora em São Paulo. São todos sacerdotes. Seguiu-se, assim, a lógica de um antigo adágio mineiro: “Porteira por onde passa um boi, passa uma boiada”. Para ser mais elegante: “Por onde passa uma ovelha, passa um rebanho”, formando um novo aprisco.

Tenho a nítida clareza de que agi, insisto, num foro estritamente pastoral, numa brecha de lei canônica e numa ampla porta aberta, marcada pela (i) lógica do Evangelho de Jesus. Não fiz coisa alguma pensando em denegrir ou afrontar a imagem de quem quer que seja. Entretanto, sei que acabei apontando e denunciando o problema da autoridade, que em minha compreensão, é o calcanhar de Aquiles da Igreja atual. Ora, autoridade é fundamental para a dinâmica da práxis missionária da Igreja, mas é preciso considerar que uma autoridade somente pode ser exercida em três variáveis: pelo caminho da legalidade (que se caracteriza pela imposição da lei ou da força de coerção); pelo caminho da legitimidade (que ocorre quando uma comunidade percebe o carisma de seu líder ou pessoa responsável e legitima sua autoridade); e pelo caminho ideal, numa espécie de dialética entre legalidade e legitimidade, desde que a legitimidade seja a tônica do discurso, porque marcada pela conquista e serviço. Assim, acredito piamente que autoridade, com princípios bíblicos, é conquistada pelos caminhos relacionais na dialética de uma legalidade afirmada, posteriormente legitimada na vivência com a comunidade.

Nesse fórum pastoral, não creio ter ferido a ética. Para os que acham que a feri, pergunto: que ética? Será que alguém poderia legal e legitimamente reclamar pela ética neste momento tão complexo que vive a Igreja? Confesso que, em todo este processo, não pensei em condicionar ou ferir a ética. Ao contrário, fiz o que apontou o meu coração. Segui minhas convicções pessoais, seguindo um velho conselho de Max Weber. Aboli, por um lapso de tempo a minha ética de responsabilidade e pelo afã da ética de convicção, acolhi estes(as) irmãos(ãs) pensando no critério evangélico. Resolvi seguir um princípio apreendido nas sagradas letras que afirma: “Mas, como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações”. 1 Tessalonicenses 2.4. Pensei cá com os meus botões que o evangelho atingiria maior tonalidade mediante o grandíssimo abraço aos irmãos de Belém.

Decorreu desse abraço a formulação de uma queixa contra a minha pessoa por parte da liderança da REMA e da igreja central de Belém. A queixa questiona minha atitude, principalmente pelo fato dos(as) irmãos(ãs), que foram acolhidos por mim, estarem em disciplina. Ora, que disciplina? A que vem arbitrariamente do púlpito? A que vem como abuso do poder? Quando percebo que alguém está se desviando dos princípios da igreja ou mesmo da fé evangélica, procuro essa pessoa, vou a casa delas. Desejo ouvi-las e conciliá-las. Como se pode estabelecer disciplina eclesiástica para membros na Igreja Metodista sem os percalços canônicos? Expliquem-me, por favor!

Informo também que nos primeiros contatos com estes(as) irmãos(ãs) acolhidos(as), ficou claro para mim a perspectiva de que eles(as) não queriam ir para Igrejas Batistas ou Igrejas Presbiterianas, entre outras, mas queriam continuar membros da Igreja Metodista. Assim, assumi o acolhimento pensando em coisas estranhas que acho, não fazem mais parte do nosso convívio eclesiástico, tais como, por exemplo: unidade, conexidade, liberdade de espírito, pastoreio, entre outras.

Informo aos irmãos que trabalhei tão somente para resguardar a unidade da Igreja. Eu sei que às vésperas de um Concílio Geral, essa minha ação pastoral pode parecer ação politica para evidenciação de minha pessoa. Tenho o coração no altar e todos os mais próximos sabem muito bem que as decisões tomadas se deram por uma estrita devoção ao Evangelho.

Na prática, todas essas ações estão fazendo surgir um ponto missionário em Belém do Pará. Um meu amigo me disse que meu erro foi declarar que se tratava de um ponto missionário. Na concepção dele, se eu tivesse dito que era uma “célula”, não haveria problemas. Eu até estou pensando em abrir “células” em Belo Horizonte, em Vitória e onde estiverem metodistas decepcionados com os rumos da Igreja. Aliás, sobre este aspecto acho que vale a pena perguntar sobre que igreja que o colégio episcopal quer? Acho que o colégio deveria escrever uma carta pastoral dizendo: “queremos que os metodistas brasileiros sejam assim! Quem não concordar, sai fora”. Isso tem sido dito. Acho, sinceramente, que deveria ser escrito e posto no maravilhoso altar das cartas pastorais do colégio para a igreja.

Então, a minha ação de acolhimento, tão somente isso, não é uma ação esporádica com tonalidade puramente teórica. Como já evidenciei, o Evangelho para mim é Evangelho encarnado e, como tal, precisa ser prático seguindo a lógica do serviço. Por isso, tenho estado com o grupo mensalmente. Celebramos a Ceia do Senhor e nos apoiamos mutuamente. Pergunto-me: por que essas pessoas foram excluídas? Por que tinham que aceitar a imposição de uma visão pastoral? Por que as decisões conciliares não foram respeitadas? Por que não se pôde sentar em uma mesa para saborear uma deliciosa maniçoba ou o pato no tucupi e buscar amizades?
Mesmo diante dessas questões de ordem prática, eu estou sendo questionado em minha ação de acolhimento. Eu disse na primeira reunião da comissão de disciplina que se eu tivesse adulterado com mulheres da igreja local, ou dado um calote em estabelecimentos da cidade, ou ainda, se tivesse tido uma vida irresponsável em relação às finanças e organização da minha igreja, então eu diria estar arrependido, choraria, pediria perdão, receberia uma exortação, uma disciplina de três meses, e tudo voltaria “tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Diante da encruzilhada em que resolvi me envolver, marcada pela dicotomia entre lei e pessoas, preferi as pessoas, preferi estar ao lado dos mais enfraquecidos. Se os sentimentos dessas pessoas fossem ao menos ouvido, certamente nada disso teria acontecido. Ora, eu não criei esta situação, somente entrei nela para, quem sabe, ajudar na resolução.

Prezados(as) irmãos(ãs), teria muito a escrever ou narrar, mas sei que os(as) senhores(as) têm mais a fazer. Quero somente finalizar dizendo que não envolvi CLAM, tampouco Concílio nessa situação. Somente conversei com os membros da Igreja e ouvi seus sentimentos. Como a Igreja possui pessoas que também foram acolhidas de forma similar, o apoio foi irrestrito e, creio, unânime. Então, a decisão foi de foro estritamente pastoral, um ato de governo pastoral. Não envolvi os membros através dos mecanismos legais que estruturam a Igreja. Assim, a responsabilidade é tão somente pastoral, embora legitimamente apoiada pelos irmãos e irmãs de Bela Aurora.

Concluo, assim, esse meu breve relato, solicitando aos(às) meus(minhas) irmãos(ãs) metodistas que se manifestem contra arbitrariedades, que denunciem os abusos de poder, que reclamem pelo genuíno Evangelho de Jesus Cristo, que busquem a justiça, que digam não ao “papismo” que afronta a simplicidade do Reino que é sempre uma dimensão modesta, de pequenas ações. Ora, quem faz a Igreja é o povo, não os(as) pastores(as), os(a) bispos(a); quem dá dízimo para a manutenção da Igreja são as pessoas de coração sincero que amam a Igreja. A Igreja precisa ser ouvida. Curioso vir à minha mente uma emblemática passagem dos Evangelhos em que o Mestre de Nazaré expressa: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da Lei, ate que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. Mateus 5. 17-20.
No amor de Cristo, Senhor da Vida,

Moisés Abdon Coppe
Membro e pastor na Igreja Metodista de Bela Aurora.