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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quem avisa amigo é!


Não sei quanto a vocês, mas eu estou intuindo um tempo muito complexo para a instituição metodista nos próximos anos. E falo de instituição no seu sentido lato, abrangente.
Analisando as propostas que estão sendo discutidas neste concílio geral da igreja metodista, ficam evidentes tais intuições, pois tudo indica um fechamento de ideias ainda maior.
Como já deu pra perceber, estou tentando fazer uma distinção entre igreja e instituição, embora saiba que essa distinção consiste-se em uma aporia. Resolvi insistir nisso e propor alguns avisos. Vivemos uma sociedade marcada por avisos. Somos avisados todo o tempo, o tempo todo. Comerciais nos avisam, painéis nos avisam, panfletos nos avisam, pessoas nos avisam. Somos cercados, inevitavelmente, por avisos.
Por isso, considerando-me um amigo da igreja, resolvi avisar. Meus avisos não são despretensiosos, senão honestos e marcados por um estrito senso de responsabilidade. Acontece que, por uma razão óbvia, se sei que alguma coisa não está caminhando bem, então tenho a obrigação de avisar. Afinal de contas, quem avisa amigo é!

Primeiro Aviso
As primeiras decisões deste concílio geral favorecerão ainda mais o clericalismo nas esferas da igreja. Infelizmente, e para desespero do corpo leigo (embora não gosto muito dessa terminologia), este conclave vai dar mais amplitude aos pastores e às pastoras. Acontece que por causa de um desespero velado, as estruturas de poder da igreja precisam, inevitavelmente, de uma reação ante aos distúrbios que estão gerando a ausência de crescimento da igreja. Setores de poder da igreja acreditam que somente por intermédio do crescimento numérico, permeado pela visão do pastor ou da pastora, as coisas poderão ter uma perspectiva diferenciada. Que venham os famigerados “encontros com Deus” e suas “benesses”, bem como a lógica: "se não concordar, sai fora"!

Segundo Aviso
Ocorrerá um maior distanciamento da dimensão da missão. Quando se diz que tudo é missão, nada é. Assim, este concílio geral vai brincar de pensar e refletir missão, como os anteriores. Acontece que a igreja metodista nunca encarou e nunca pensou o que realmente é a missão. Ora, é claro que missão é uma palavra incrementada para se falar e se fazer o básico, ou seja, “amar a Deus e ao próximo como a si mesmo”. Inventaram essa palavra para se falar do básico, mas, infelizmente, o básico sequer é feito. Missão hoje, na igreja metodista, está maquiada de múltiplas coisas, menos do essencial que é encontrar as pessoas nas suas angústias e contradições e apresentá-las a Jesus.

Terceiro Aviso
Será reafirmada de forma mais enfática a dimensão não-ecumênica da igreja. E isso será reafirmado porque a igreja nunca refletiu detidamente sobre a questão ecumênica. Aliás, a igreja nunca estudou a história do ecumenismo. Ora, ecumenismo é coisa de protestante. A igreja católica, excetuando-se alguns setores mais progressistas, não é ecumênica coisa alguma. Prova disso é a Dominus Iesus publicada pelo santo ofício. Mas nós, protestantes, temos na veia esse sangue ecumênico. Aliás, somos ecumênicos porque a vida é ecumênica. Se estamos doentes e vamos ser atendidos por um médico, não perguntamos a ele sobre sua religião ou fundamentos de fé. Queremos sim é a resolução de nosso problema. Que se dane a proposta religiosa. A vida é sempre maior, muito maior que opções religiosas. Confirmei isso ao conversar muitas vezes com missionários que trabalharam em missões no exterior. Estes sempre me disseram que no front, questões confessionais ou religiosas ficam apequenadas. Esse é o ecumenismo que creio. Mas o atual concílio geral vai manter sua postura de segregação religiosa. O outro vai continuar sendo o demônio.

Quarto Aviso
As instituições de ensino da Rede Metodista de Educação serão vendidas. Ora, é sabido que há tempos, as nossas instituições estão passando por momentos difíceis. Essa situação tem várias facetas. Elas vão desde o abuso da instituição eclesial em relação ao “repasse” de verbas para a “missão” da igreja até a disputa acirrada no mercado da educação. Então, poucas pessoas, as mais lúcidas, se lembrarão da proposta inicial da igreja que era a de “salvar e educar”. Ora, as nossas instituições surgiram em terras brasileiras com um propósito especial de formar uma geração de líderes para a nação segundo os princípios bíblicos. Entretanto, educação agora é um apêndice maldito que precisa ser excluído ou um câncer que precisa urgentemente de um tratamento quimeoterápico. É, a coisa vai ficar feia para as instituições. Mas que ninguém se engane, com a venda das instituições capítulos outros serão escritos e movimentos outros surgirão, infelizmente, para a cisão da igreja metodista. Kirie eleisson.

Quinto Aviso
O colégio episcopal terá mais poder para dirimir sobre a vida dos clérigos da igreja, principalmente no que se refere àqueles que discordarem do sistema. Que seja assim, pois, pelo menos, haverá mais transparência por parte do colégio em relação ao sistema que dirigem e, principalmente, posturas mais coerentes sobre o que realmente pensa o colégio. Pelo menos, não serão ironizados aqueles que se apresentam críticos do sistema. É triste saber que membros de um colégio que se responsabiliza pela unidade da igreja riem e caçoam de grupos que tecem críticas ao sistema. Que o tal poder seja dado ao colégio, o parafuso espane e “salve-se quem puder”.

Enfim, eu gostaria realmente que todas essas minhas colocações fossem somente uma variação tresloucada de um peregrino espiritual, mas não são, infelizmente. No repartir dos despojos, sobrará pouca coisa. Triste fim para uma igreja que, por seus ideais, sempre pareceu bem maior do que sempre foi.
Pelo menos, sobra-nos ainda as palavras vivas de João Wesley quando deixou evidente que seu medo não era de que o movimento metodista deixasse de existir, mas sim que ele se tornasse um movimento sem efeito para a sociedade, uma religião fria.
Se acabar, que pelo menos acabe com dignidade. Detestaria a ideia de morrer institucionalmente num movimento fracassado pelas suas frustrações bestiais. Podemos perder tudo, menos a nossa característica de ser um exemplo para as pessoas e para a sociedade.
Deus tenha misericórdia da igreja metodista.