Pages

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Santidade é amizade com Deus

“Não existe nada melhor do que ser amigo de Deus”. Com essa letra poética, Adhemar de Campos compôs uma das mais belas canções da nossa hinologia atual. Realmente, a letra dessa canção concorda com uma crucial verdade bíblica: o desenvolvimento da santidade se dá na perspectiva da amizade com Deus. João, em sua primeira carta pastoral, definiu Deus de forma enfática: “Deus é amor” (1 João 4.8). Essa é uma premissa fundamental para a fé cristã. Tudo o que pensamos a respeito de Deus precisa passar, de antemão, por essa confissão de fé. O cristianismo não pode prescindir dessa expressão que é basilar para a interpretação da Bíblia. Assim, temos que sempre achar nas sagradas letras a presença de Deus amor. A partir dessa ideia de que Deus é amor, podemos desenvolver nossa argumentação sobre o significado da santidade, pois não temos o direito de pensar em santidade sem a dimensão do amor e da amizade. Isso quer dizer que nosso relacionamento com Deus é um relacionamento amistoso. Para que essa ideia fique clara, torna-se fundamental fazermos uma distinção entre a santidade marcada pela lógica das obras e a santidade marcada pela ênfase da amizade. 1. A santidade marcada pelas obras. A igreja evangélica brasileira prega muito sobre a santidade. Entretanto, quando nós avaliamos criticamente essas pregações, deparamo-nos com uma santidade marcada pelas obras. Diariamente, somos convocados a realizar práticas e rituais com o intuito de nos fazermos santos. E isso se torna um problema, pois não é dessa forma que alcançamos Deus. E se a pessoa não consegue realizar essas práticas (orar em todo tempo, jejuar todos os dias, louvar 24 horas, ir à igreja freqüentemente, evangelizar a cada oportunidade), ela é considerada “menos espiritual”. Não estou dizendo para deixarmos de fazer essas coisas, entretanto elas precisam ser a resposta a um relacionamento e não o caminho para movermos o coração de Deus. Ele não precisa disso. Nesse movimento de fazer porque Ele quer ou requer de nós, nos lançamos, tão somente a uma prática de religiosidade. O nosso relacionamento com Deus tem que ser marcado pela dimensão da Graça. “Pela graça, sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus. Não por obras, para que ninguém se glorie”. Efésios 2.8. Então, não é por obras que vamos nos aproximar de Deus. A santidade que almejamos vai um pouco mais além. 2. A santidade marcada pela amizade. A amizade é a mais elevada manifestação do amor humano. Sobre esse aspecto Ed René Kivitz expressa: “Amigos são aqueles com quem podemos viver sem máscaras, porque não tememos ser rejeitados. Amigo é aquele que conhece você por dentro e, mesmo assim, continua seu amigo. O relacionamento de vocês extrapolou a fase dos possíveis desapontamentos e condições para a manutenção da amizade”. (Vivendo com propósitos, p. 182). Em minha modesta concepção, este pensamento cabe dentro da dinâmica da santidade marcada pela amizade. Ora, Gálatas 5.1 atesta que somos seres livres e como seres livres devemos nos relacionar com Deus livremente. Não por intermédio de práticas ou ritos, mas numa profunda e íntima amizade com Ele. Jesus exemplificou isso ao dizer aos seus discípulos, depois de alguns anos de relacionamento com eles, que ele não os chamaria mais de servos, mas de amigos. Compreendo, assim, que essa afirmação de Jesus eclodiu no coração dos discípulos provocando-lhes diversas reações positivas. Na dimensão da lógica de Jesus, a intimidade tem a ver com a amizade. Podemos dizer que não existe nada mais profundo do que a intimidade com Deus. Dessa forma, todas as nossas práticas se tornam, tão somente, frutos da nossa amizade com o Senhor. Oramos porque somos amigos de Deus. Jejuamos porque somos amigos de Deus. Vamos à igreja porque somos amigos de Deus e assim por diante, sem aquela pretensão de querer alcançar favores ou bênçãos. 3. Sede santos! João Wesley definiu a santidade como um processo na vida dos cristãos. Quando perguntado, já nos últimos minutos da sua vida se havia alcançado a perfeição cristã ou a santidade, ele respondeu: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”. Abraão foi chamado amigo de Deus. Isso se deu porque sua vida baseava-se em uma estrita intimidade com Deus. A obra ou a ação de Abraão estava diretamente ligada à ideia de uma relação amistosa, e não à obediência cega, surda e muda a uma divindade qualquer. Por isso, sua relação é diferenciada. De igual modo, temos que nos entregar a uma genuína amizade com Deus, pois é isso o que realmente nos distingue numa sociedade individualista e consumista. O desenvolvimento de uma amizade com Deus nos tornará mais humanizados e conscientes de que a força propulsora de nossas vidas espirituais se qualifica numa conversa com Deus ao entorno da mesa, com muitos risos manifestos e uma sincera manifestação da amizade ao som de um convite: Sede santos, porque Eu sou santo. Nada mais santo que isso. Conclusão. Enfim, eu gostaria muito que os nossos discursos e ênfases sobre a santidade permeassem o terreno da amizade. Acho que isso é muito mais honesto e significativo. Mais do que a máscara ou a maquiagem para se parecer cristão, trata-se de aceitar o desafio de ser realmente cristão. Ora, só é cristão quem se relaciona com Deus de forma íntegra, sem estereótipos, sem cera, sinceramente. Temos que defender com alegria e liberdade o fato de que o nosso Deus nos ama e quer se relacionar conosco, prioritariamente, na esfera da amizade. Aceitemos esse desafio.