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domingo, 6 de novembro de 2011

Os Modernos Fariseus

É curioso notar como as pessoas, principalmente os religiosos ou os modernos fariseus, se escandalizam com coisas pequenas. É incrível como ainda persiste em alguns lugares desse país a convicção de que o “testemunho”, no caso evangélico, está restrito ao comportamento “diferente do católico”. Eu ouvia na minha infância a máxima: “crente não bebe, não fuma, não dança, não joga.” Minha irmã mais nova, que gostava de dançar, uma vez disse para minha mãe que queria ser católica! Hoje, de modo geral, não é mais assim, porque muitos evangélicos já se deram conta de que testemunho cristão nada tem a ver com um monte de regras do que se deve ou não fazer, mas com a maneira como tratamos as pessoas. Contudo, há os que insistem na máxima para tentar manter as “aparências”. E muitos condenam publicamente o que eles mesmos praticam no privado, na clandestinidade. Por exemplo, ninguém deixa de comer porque a comida pode fazer mal; não se joga a Bíblia fora porque grupos religiosos usam-na de modo inadequado; não se deixa de votar porque há maus políticos etc; não se deixa de beber porque se pode ficar de porre. Há aqueles que, pelo uso em excesso, precisam se abster. Mas essa não é a realidade de todos. Por causa dessa consciência, há igrejas que servem na Ceia do Senhor, ao mesmo tempo, vinho e suco de uva. Entretanto, para muitos evangélicos, o problema de fundo é o farisaísmo. Farisaísmo tornou-se sinônimo de hipocrisia denunciada por Jesus porque os judeus do partido dos fariseus valorizavam mais a lei do que as pessoas. É muito fácil perceber a diferença entre a mensagem dos fariseus e a mensagem de Jesus: a dos fariseus afastava os pecadores e a de Jesus atraía os pecadores. Assim, qualquer anúncio, proposta, programa, intenção de santidade ou santificação precisa responder a seguinte questão: É de acordo com Jesus Cristo ou é de acordo com os fariseus? Jesus Cristo, sendo santo, nunca declarou “eu sou santo” e atraiu pecadores/as. Os fariseus, sendo pecadores, aparentavam-se santos e afastavam os pecadores/as. Os fariseus de hoje, os modernos fariseus, tentam a todo custo transformar Jesus Cristo num fariseu também. Se eles rasgassem as páginas do Novo Testamento ficaria explícito que não é a Jesus Cristo que eles seguem. Eles fazem pior: usam a tradição religiosa como fundamento da vida e o conteúdo dos Evangelhos não passam de ilustrações descontextualizadas para reforçar a tradição, um “verniz” para “melhorar a aparência”. Assim, muitos evangélicos são bons propagadores de suas doutrinas, mantenedores de suas tradições, adoradores de suas denominações. Mas quando se colocam diante da luz do Evangelho descobrem que são modernos fariseus. Há crentes, por exemplo, que transmitem uma imagem de Jesus que se estivesse escrita seria assim: Na festa de casamento em Caná da Galiléia Jesus sobe numa cadeira e diz: Somos abstêmios ao álcool como bebida! Joguem fora o vinho e sirvam chá! No templo, ao observar os cambistas, Jesus se aproxima, exulta de alegria e propõe: tenho uma multidão que me segue. Posso trazer todo mundo pra cá, o templo vai ficar lotado! Antes, porém, vamos combinar quanto vou levar nesse negócio. Os discípulos repreendem as crianças e as impedem de se aproximarem de Jesus. Ele os elogia: vocês são bons seguranças! Não quero crianças perto de mim, elas só brincam, atrapalham o culto e não dão o dízimo. A mulher que lava os pés de Jesus com lágrimas e os enxuga com os cabelos, recebe uma reprimenda: Você está louca? Levem esta prostituta daqui! E, com medo de pensarem mal dele, explica para os que jantam à mesa que nunca havia visto aquela mulher. E na última ceia? Jesus diz: Há alguém aqui entre vocês que vai me trair. Judas Iscariotes, você está de disciplina! Não participa da Santa Ceia! Um Jesus assim conseguiria um cargo de secretário executivo do “Sinédrio”. Ele jamais seria condenado e morto. Os modernos fariseus são habilidosos em dizer quem está salvo e quem está condenado; em contar seus próprios feitos buscando aplauso do público; em impor sobre as pessoas costumes e regrinhas que eles mesmos não guardam. Mas o que mais salta à vista é a capacidade que os modernos fariseus têm de se escandalizarem. Eles se escandalizam com o jeito das mulheres se vestirem e se pintarem, se escandalizam com formas diferentes de cultuar, se escandalizam com quem come sangue, se escandalizam com quem bebe, se escandalizam com quem dança, se escandalizam com quem joga, se escandalizam com quem fuma. Lamentavelmente muitos crentes vivem como modernos fariseus. E não vai ser esse texto que vai fazê-los mudar. Talvez aconteça até o contrário: porque confrontados, se tornem teimosamente mais endurecidos no farisaísmo. E se continuam se escandalizando, quero sugerir que se escandalizem também com outros fatos:  Pastor que troca membros da liderança a seu bel prazer;  Pastor que manda embora da igreja membros que pensam diferente dele;  Pastor que administra sozinho as finanças da igreja local;  Pastor que se aproveita da fragilidade emocional de membros para subjugá-los;  Pastor que não visita os enfermos, os idosos, as viúvas e os pobres;  Pastor que é refém dos membros de melhor condição econômica;  Pastor que prega o evangelho da prosperidade;  Pastor que aceita dinheiro de políticos para projetos ministeriais (ou moneysteriais?);  Pastor obediente aos superiores e desobediente ao Evangelho;  Pastor que utiliza os cânones apenas quando lhe convém;  Pastor que gosta de ser bajulado;  Pastor que gosta de bajular suas autoridades;  Pastor que quer transformar sua igreja num movimento emocional;  Pastor ufanista;  Pastor ditador;  Pastor infalível. A lista pode ser maior, mas já é suficiente. Bem, eu vou ficando por aqui seguindo a lógica: Tudo com moderação, com temperança. Se você não consegue ser temperante, é melhor continuar abstêmio. Mas seja abstêmio de verdade! Aos que são abstêmios no público, convido-os a sair da clandestinidade. Ninguém será julgado pelo que bebe ou come. E se Deus vê, o que importa se qualquer outra pessoa veja? O Reino de Deus não é comida e nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo, disse o apóstolo Paulo na carta aos romanos. Para finalizar, a vida é curta e nós temos que aproveitá-la da melhor maneira possível. Sem dramas! Sem condenações! Sem inveja! Sem hipocrisia! Mas, se ao final, os modernos fariseus, que são fiéis servos da vaidade e querem fazer-nos seus tentarem nos ver sem a graça do bom Deus, digo: Vencendo vem Jesus! Maurício Ramaldes.