Pages

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Primeiros Passos em 2012

Dados os primeiros passos nesse novo ano, sinto-me desafiado a olhar o tempo presente e consequentemente o porvir, com olhos teimosos. Isso porque não possuo nenhum tipo de expectativa positiva em relação ao tempo vindouro. Não que eu tenha perdido a esperança, essa mola mestra de nossa formação e espiritualidade, mas ela tem se manifestado em minha alma de forma extremamente comedida. Eu não me considero um pessimista, mas resolvi seguir um antigo conselho de meu pai e colocar as barbas de molho. Descobri que essa expressão está ligada a um provérbio espanhol que diz: “Quando vir as barbas do seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho”. Aliás, descobri também que na antiguidade e na Idade Média, a barba simbolizava honra e poder. Se cortada, representava uma grande humilhação. Independente de comentários aleatórios, certo é que essa expressão tem a ver com desconfiar daquilo que se posta ante o olhar. Acho mais prudente essa postura porque, de repente, posso ser surpreendido por alguma boa novidade. Eu não temo coisa alguma que me desafia, a não ser a hipocrisia dos que sorriem pela frente e ameaçam pelas costas. Por isso, prefiro colocar as barbas de molho. Ademais, minha alma é povoada por uma série de sentimentos difusos que se deslocam com facilidade nos meus jogos mentais e me dão a sensação de múltiplas transitoriedades. O poeta já havia declarado que por causa das transitoriedades, era necessário ele se portar como uma metamorfose ambulante, a ter sempre a velha opinião formada sobre tudo. Corroboro com a intuição do poeta e me sinto igualmente em completa e complexa transformação. Talvez decorra daqui essa minha dúvida inquietante frente à esperança. Por isso, prefiro a teimosia. Sigo aqui um princípio de Gandhi: “Coisas que nos parecem impossíveis, só podem ser conseguidas com uma teimosia pacífica”. Nos dicionários, teimosia se define por uma persistente obstinação às próprias ideias, gostos etc. Eu sei que para muitas pessoas a teimosia tem um aspecto completamente negativo, mas no arcabouço dessa reflexão ela abarca uma conotação positiva e extremamente propícia para esses tempos de transitoriedades. Acontece que, por uma razão óbvia, somente consegui alcançar o que alcancei por causa da minha teimosia. Eu sei também que pelo fato de me auto-designar um teimoso, acabo por ser considerado um chato para muitos. Mas que se dane. Confirmo aquilo dito pelo mesmo poeta de antes: “Não sei aonde vou chegar, mas estou no meu caminho”. Então, independente do que se estabelecer frente ao meus olhos, vou continuar com minha teimosia, pois é a única forma de continuar sobrevivendo diante do caos – aparentemente visionário – que se instala travestido em discursos informes. Os dias são sombrios e nublados, e na mina concepção pessoal, vão assim continuar. Mesmo diante da minha recatada esperança que se concretiza numa espécie de teimosia chata, faço minhas as palavras de Darcy Ribeiro: “Na verdade, sou um homem feito muito mais de dúvidas que de certezas, e estou sempre predisposto a ouvir argumentos e a mudar de opinião. Tenho mudado muitas vezes na vida. Felizmente.”