Pages

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Uma Reflexão sobre a Morte

Vez por outra, somos tomados por múltiplas perguntas e poucas convicções e respostas. Em que pese a nossa vontade e desejo por uma vida mais cartesiana e lógica, somos, invariavelmente, assaltados por situações inexplicáveis que nos deixam atemorizados. Como que do nada, recebemos a notícia da partida de um ente querido e sentimos nossa alma fragmentar-se. Uma dor lancinante se instala, nossa fé se estremece e o caminho, dantes reto e límpido, se torna tortuoso e nebuloso. É uma experiência de claro-escuro que faculta ilusões e desilusões. De fato, o turbilhão oriundo de um momento fatídico deixa-nos tal qual a nau sem leme e sem remo no meio de um oceano bravio. E, então, perguntamos como o salmista: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O clamor do salmista, relembrado por Jesus na cruz do calvário, que ecoa ainda em nossos dias, é tomado emprestado por nosso espírito com a finalidade de tentar conter a “sombra da morte” e declarar, “esperando contra a esperança”: “Não temerei o mal porque Tu estás comigo”. É essa atitude teimosa que insiste em resistir ao inusitado. Pessoa alguma pode perder a sensibilidade frente ao inusitado, pois viver é realmente muito complexo, entretanto bom; e viver pela graça de Deus é melhor ainda. Acho que foi com o olhar em torno da complexidade da vida que o salmista escreveu: “Tua graça é melhor do que a vida”. Ora, a graça de Deus é essa dimensão que nos ajuda a melhor conceber as relações humanas e todos os acidentes delas decorrentes. Sendo assim, todos os bons sentimentos e superações, oriundos das relações entre semelhantes ou mesmo dos acidentes de percurso, são interpretadas por nós de diversas maneiras e se harmonizam em nossa vida, tão somente, pela concretude da graça. Essa dimensão cuidadora e amorosa de Deus para com seus(suas) filhos(as) amados(as), independente dos momentos – sejam eles bons ou ruins – é manifestação de uma presença sempre furtadora da dor. Sendo assim, o sofrimento, inerente a todos ser humano, é experimentado porque somos seres ainda ligados aos elementos físicos. Mas tal sofrimento é apaziguado por Deus, pois somos seres marcados pelo espírito. Ora, a zona espiritual é a zona da superação. É a zona da poesia, da música, das artes, da contemplação e da memória bem resolvida com o seu passado. Ao mesmo tempo, somos seres físicos e espirituais, imanentes e transcendentes. Experimentamos a vida, suas belezas e tragédias e somos projetados pela graça para o campo florido e perfumado da superação. A graça é melhor do que a vida porque é ela a agente de Deus que nos permite a superação. Quando não temos respostas frente a qualquer ocorrido, nos alimentamos da presença cuidadora de Deus e superamos a nossa dor. Então, diante do irônico da vida, quando as perguntas “são” e as respostas “não-são”, recorremos, enfim às coisas do espírito. E é o Rubem Alves quem poeticamente nos diz que nós não morremos, mas transformamo-nos em aves selvagens e livres que voam rumo ao paraíso gestado pelo Criador. Em outras palavras, somos tal como uma música bem harmonizada, com boa melodia, ritmo e dissonância; música que no devido tempo cessa de ser tocada e cantada, deixando nos palácios da memória a saudade e a convicção de que a música será novamente executada, em tempo oportuno, no templo da eternidade.