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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Estou Casado! E agora?

Estas três coisas me maravilham; e quatro há que não conheço: O caminho da águia no ar; o caminho da cobra na penha; O caminho do navio no meio do mar; E o caminho do homem com uma mulher. Provérbios 30.18-19
Um dos grandes desafios para as pessoas que optam pelo matrimônio é a dinâmica da vida a dois. De fato, existem muitos dilemas e conflitos quando duas culturas e espiritualidades distintas, oriundas de processos educacionais diferentes, se conjugam num espaço que recebe a alcunha de lar. Comparo a vida a dois como abrir uma picada na mata densa e desconhecida. E o que se tem à mão é, tão somente, um facão amolado para criar a trilha. Anteriormente a nós, outros casais abriram suas respectivas trilhas, mas a experiência de um não pode ser repetida por outro. Sendo assim, cada casal tem que se aventurar em sua própria trilha. Eu que estou casado há 22 anos percebo que em alguns momentos eu e minha mulher nos cansamos, exaustos, de tanto gravitar o facão em busca de melhores trajetos. Então, paramos para descansar em clareiras, para depois nos lançarmos, novamente, ao árduo movimento na mata fechada. E o pior é que nunca chegamos ao destino final, porque não há destino final. O casamento, então, é uma espécie de labirinto onde duas pessoas precisam aprender a viver bem sem a cobrança por uma felicidade final, pronta e acabada. Nessa mata fechada labiríntica, surgem-nos duas opções mais emblemáticas: a primeira refere-se a viver a referida aventura sem o contentamento necessário e fundamental para o ser humano. Para os que optam por esse caminho, fica somente o cheiro da desilusão e da conformação. A segunda opção abraça o divertimento e procura o contentamento, independente dos resultados finais. Ora, esta opção nos dá a possibilidade de melhor nos harmonizarmos na vida e com a pessoa que escolhemos caminhar conjuntamente. Quando se perde esse desejo pelo produto final ou pela plena realização de um sonho, acredito, fica mais fácil viver a jornada a dois. Nesse sentido, o texto bíblico que apontamos para a nossa reflexão nos dá um parecer interessante sobre a pergunta que dá título à nossa mensagem. Ora, o texto em questão demonstra a dificuldade do caminho de um homem com a donzela, no caso, sua mulher. O autor do livro de Provérbios apresenta-nos quatro coisas que são complexas demais para ele. Em sua referência, o primeiro é o caminho da águia no céu; o segundo é o caminho da serpente na pedra; o terceiro é o caminho do navio no mar e o quarto é o caminho do homem com a mulher. A princípio, podemos dizer que o autor busca o sentido das coisas e as razões pelas quais essas dinâmicas se dão tal como se dão. Assim, ele se assusta quando percebe que não há uma resposta clara e evidente. Seu susto é, também, o nosso susto. Sendo assim, fica claro para todos nós que no que se refere a casamento, o caminho a ser trilhado e a própria busca de sentido em sua estrutura é experiência particular onde não existem mapas, tampouco receitas acabadas. Por isso, digo a você, distinto casal, que a aventura que hora vocês abraçam é única e marcada pela sensação de que não existe outra experiência igual em todo o planeta terra. Desta forma, vocês devem se apropriar da experiência conjugal de vocês como sendo a mais especial porque é única. Então, já que não temos a possibilidade de um final feliz, como já pontuei anteriormente, torna-se fundamental que em meio às tensões inerentes ao casamento, vocês tenham oportunidade de se divertir. Acho que este é um bom caminho para a dinâmica de vida a dois. Talvez, com o intuito de melhorar essa brincadeira, Mario Quintana, poeta brasileiro, escreveu certa feita uns versos interessantes que deveriam compor o momento de votos de todas as celebrações de matrimônio vigentes. Digo isso porque na dinâmica do relacionamento conjugal deve existir divertimento, e esse divertimento tem que estar de mãos dadas com a liberdade. Sem liberdade, nenhuma estrutura consegue resistir, inclusive o casamento. Vamos, pois, às suas sugestões poéticas: 1. Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade? 2. Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica? 3. Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? 4. Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela? 5. Promete se deixar conhecer? 6. Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor? 7. Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? 8. Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros? 9. Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina? 10. Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher. Declaro-os maduros. Enfim, seja realmente esta a demanda de vocês que agora estão casados. E se em algum momento a pergunta “e agora?” surgir nos entroncamentos relacionais, saiba que não existe nada melhor do que um dia após o outro. Nada melhor do que uma noite após a outra. Nada melhor do que um beijo após o outro. Nada melhor do que não ter compromisso com a felicidade – aliada ao contentamento – de querer que o outro seja livre para ser o que é no entrelaçamento do amor. Acho isso fundamental.