Pages

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meu Carnaval de Silêncio e Frio

Aqueles que conhecem Paris sabem muito bem que neste período do ano, onde o frio se instala de forma agressiva, a cidade fica silenciosa. As pessoas passam pelas grandes boulevards e pelas pequenas ruas com passos apressados, encolhidas e envolvidas pelos seus casacos escuros. Todos parecem correr, talvez para se abrigarem do frio ou encontrarem um lugar aquecido para o descanso do corpo. Como é interessante perceber que no bojo dos dias, as pessoas se entregam ao trabalho com intensidade para, ao final do mesmo, se recolherem aos seus lares, quem sabe para tomar uma sopa ou um chocolate quente, acompanhado logicamente de uma tradicional baguete e da companhia de alguém. Ao final de cada tarde, vejo as pessoas passando com seus embrulhos e seus passos apressados. Fogem do quê? Fogem de quem? Para mim, inegavelmente do frio. Nas mesmas tardes cinzentas, vejo as crianças saindo das escolas. Elas são pacotinhos ambulantes que caminham nas ruas tal qual pequenos robozinhos. Tamanho o número de roupas e acessórios que as envolvem. Vejo-as de mãos dadas com as mães ou então nas garupas das bicicletas com os pais. Elas também caminham silenciosas. Mesmo porque nessa época do ano todos os parques estão fechados e a alegria, inerente a cada uma delas, está escondida dentro das toucas e nos sonhos bizarros. O silêncio só é quebrado pelo canto de uma nota só dos corvos. São eles, vestidos em seus distintos ternos pretos, que quebram o silêncio no alto das árvores secas ou dos prédios e suas chaminés. O que ocorre em Paris e em grande parte da Europa é uma liturgia sem cor, sem canto, sem dança, sem festa, que parece querer romper de uma forma exuberante. Enquanto discorria me olhar sempre incauto percebendo as tramoias do cotidiano, lembrei-me que neste próximo fim de semana no Brasil é Carnaval. E fiquei pensando no paradoxo. Eu, um brasileiro amante dos trópicos, tendo que me aninhar no silêncio do meu quarto, envolto em múltiplos pensamentos, enquanto meu povo se diverte pelas ruas e vive, independente de sua crença e fé, a explosão de uma sempre eterna arrumada bagunça. Sim minha gente, é Carnaval, e o meu terá alegorias mil, tendo corvos puxando o samba enredo de uma nota só; na bateria automóveis e sirenes de todas as instituições do Estado; na avenida desfilarão as alas das mulheres e homens bem vestidos com seus casacos, bem como as crianças que formarão a comissão de frente com a grande inovação: virão fantasiadas de pacotinhos. E tem as alas dos marroquinos e suas lojas de bugigangas, dos chineses com seus pratos típicos – expondo patos assados ao caramelo e eu, silencioso na arquibanda das minhas mais remotas imaginações vendo o desfile acontecer. De fato, será um Carnaval bem diferente... frio e silencioso. Paris, 08, février, 2013.