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quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Dúvida de Tomé

Alguns discípulos são estigmatizados por causa da postura e atitude que assumem frente a momentos e vivências. É o caso, por exemplo, de Judas Iscariotes – traidor; Pedro – negador; João – amoroso e Tomé – duvidoso. Eu poderia desenvolver uma série de reflexões sobre qualquer deles e descobrir que apesar dos estigmas históricos que eles sofreram e ainda sofrem, todos estes citados são personagens importantes para o nosso entendimento da história do amor de Deus pelo seu mundo. Nesta simples crônica, quero falar de Tomé. Ora, este discípulo recebe sempre a alcunha de discípulo da dúvida, da suspeita. Entretanto, é fundamental salvaguardá-lo desta posição indecorosa, pois Tomé é um espelho para todos nós. Não sejamos incautos, pois a dúvida faz parte da vida de todos e acabamos em determinados momentos, sofrendo com ela e por meio dela. Ao mesmo tempo, a dúvida é a nossa grande aliada na vida. Se não duvidássemos, tudo seria realizado de forma simplista e rápida, e não nos deliciaríamos com o sabor de cada uma de nossas conquistas. É interessante saber que os desafios em nossa jornada são importantes, pois eles se apresentam para nós como caminhos remotos e duvidosos, instigando nossos sentimentos a uma tomada de posição. Particularmente, gosto das pessoas que se posicionam na vida. Aliás, infelizmente, tem gente que se acomoda na vida e acha que o que já conseguiu é suficiente. Acho que muitas dessas pessoas que se acomodam o fazem por medo das dúvidas que se plantam no caminho da vida. De fato, não é fácil tomar decisões e caminhar em terrenos desconhecidos. Entretanto, nestes terrenos nós encontramos as mais diversas oportunidades de acertar e errar, de rir e sofrer, de amar e até se irar. Voltemos a Tomé, então. Ora, este discípulo não estava presente na primeira aparição do ressurreto narrada pelo evangelho de João. Os demais discípulos contaram a ele que Jesus havia aparecido, mas ele disse que precisava de provas, pois sem estas jamais acreditaria na ressurreição de Cristo. Na segunda aparição de Jesus, Tomé é convidado a não somente ver, mas também a tocar nas chagas cicatrizadas do mestre. Daí vem o vaticínio de Cristo: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. Todavia, Tomé não era um infeliz. É bom que percebamos que em nenhum momento Cristo rechaça ou critica Tomé. Ele o acolhe em sua dúvida. Mais do que isso, Ele se oferece como “objeto” para a pesquisa acurada de Tomé. Este discípulo tocou Jesus, como qualquer um entre nós gostaria de tocá-lo. Em minha concepção, essa mensagem existe para a comunidade de João não se inquietar tanto com provas e aferições sobre a ressurreição. Existe também para todos nós na atualidade como uma referência de que, em primeiro lugar, podemos crer sem tocar e em segundo lugar, de que não há nada de errado em se pesquisar ou se comprovar algo ou alguma coisa em meio às dúvidas. Ora, não precisamos buscar provas de tudo, mas, ao mesmo tempo, não podemos negar nossa vontade de conhecer o que se nos apresenta de forma diferenciada do habitual. Lembremos também que os demais discípulos já tinham visto o Cristo. Eles já tinham percebido o evento da ressurreição. Tomé, mais do que se entregar à busca de uma comprovação, almejava ter a sua experiência pessoal. Hoje, ao contrário dos primeiros discípulos, nós não vemos e não tocamos em Jesus, pelo menos não em concretude, mas o experienciamos pessoalmente, de alguma forma, em nossas vivências cotidianas. Tomé precisa ser lembrado como um de nós que toca o Cristo ressurreto de forma singular buscando sua experiência pessoal. Eu, particularmente, tenho uma apreciação por Tomé. Ele é para mim um exemplo de pessoa que busca referências para sua vida. Os bereianos são um exemplo do que estou dizendo. Enquanto Paulo pregava, eles iam confirmando nas escrituras o que ele estava dizendo. E nem por isso Lucas os chama de mal-aventurados. Assim, eu interpreto o fato de que através das nossas dúvidas, conquistamos outros degraus em nossa jornada de vida e construímos paulatinamente o que concebemos por espiritualidade.