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sábado, 31 de agosto de 2013

Os Incomodados que se Mudem!?

Um antigo adágio popular assim reza: “Os incomodados que se mudem”. Quero afirmar, de antemão, que concordo em gênero, número e grau com essa frase. Estou incomodado e estou em mudança. Mudo porque se torna necessária a mudança para o estabelecimento de uma ação contrária ao que se impõe. Mudo porque, recebendo as manifestações de poder ditatorial, preciso me reposicionar. De fato, se me sinto incomodado, é porque algo me transtorna, pois o incômodo é o contrário do confortável. Não me sinto estabilizado, portanto estou incomodado e, pior, demasiadamente entristecido. É cruel saber que a dinâmica que move a maioria das igrejas na atualidade está de mãos dadas com a lógica de mercado. As únicas coisas que importam, ao final das contas, são as cifras. E, para que os objetivos sejam alcançados em qualquer das esferas já citadas, pessoas precisam ser sacrificadas. Estamos vivendo um tempo de sacrifícios bizarros, que são feitos em nome de “Deus”. Em nome deste “Deus” e em nome da “salvação” de vidas com vias ao crescimento numérico das igrejas, um monte de gente é violentamente atropelada. Não há espaço para uma reflexão sobre as temáticas da fé, principalmente se elas não se encontram em acordo com a visão do líder, que por sua vez, busca a unidade a qualquer custo, não por intermédio de conquistas democráticas ou acordos diplomáticos. A unidade que se busca concerne à obediência cega à “visão” do homem ou mulher de “Deus”. Ora, a história da humanidade está repleta de monumentos emblemáticos onde ditadores, em nome de sua particular visão, se impostaram magnanimamente. Lembremo-nos dos Cézares, das Cruzadas, de Stalin, Hitler entre outros. No campo religioso, temos muitos exemplos também. Onde se fez presente a visão de um líder – em nome de “Deus”, o povo teve que se submeter. Um caso exemplar é o de Jim Jones que em 1954 criou a sua própria igreja chamada Peoples Temple Christian Church Full Gospel. Seu trabalho ganhou notoriedade, tanto que em 1960 o prefeito democrata Charles Boswell o nomeou como diretor local da comissão de Direitos Humanos. Depois de tentar ampliar sua denominação, ele acabou por criar um movimento específico na Guiana. Ao fim, levou a morte 900 membros da denominação que, incitados pela visão do líder, acabaram se suicidando. O homônimo Tim Tones – personagem de Chico Anísio – evidenciava no contexto do seu quadro, através do humor-sátira, os desvios e contradições das igrejas de mídia. Sempre ao final, após a mensagem de “esperança”, o “pastor” Tim Tones expressava em tom religioso: “Pode correr a sacolinha”. Ao mesmo tempo em que pessoas são jogadas para escanteio por não concordarem com a visão, o dinheiro entra nos caixas eclesiásticos e os adeptos a essa proposta se colocam no lugar de Deus para anteciparem Seu juízo. Determinam euforicamente quem é santo e quem é pecador; quem é servo e quem é escravo; quem é obediente e quem é rebelde; quem é de Deus e quem é do Diabo. Assim, amparados por textos do Antigo Testamento, principalmente os que ressaltam a visão de um Javé passional, tais lideres buscam a legalização e a legitimação de seus argumentos. Sem o mínimo de critério interpretativo, aplicam o texto pelo texto, a letra morta com cheiro de morte, longe da Boa Nova anunciada por Cristo. Aliás, se pensarmos bem, Jesus, mesmo ele, interpretou a Bíblia dizendo: “Ouvistes o que foi dito. Eu, porém, vos digo...”. Nessa mesma linha de raciocínio, outro fator que muito me incomoda, e que merece a minha mudança, refere-se à obediência aos princípios bíblicos sem o mínimo de critério. Tenho aprendido continuamente que a Bíblia não é um texto para ser obedecido, mas pra ser interpretado. Ora, a Bíblia é uma referência para a dinâmica de fé, mas não é um instrumento para alienar ou oprimir as pessoas. A obediência pode e deve até vir como fruto de uma interpretação da própria Bíblia. A interpretação é fruto de uma leitura orante da Bíblia. Sem oração e discernimento espiritual é impossível interpretá-la. Mudo, assim, minha forma de inserção na leitura bíblica. Acontece que, na mesma onda mercadológica, a ideia de que os fins justificam os meios – ideia atribuída erroneamente a Maquiavel – se evidencia de forma categórica nos nichos eclesiásticos. Em outras palavras, líderes seguem aquela lógica de que não importa o meio, desde que o fim seja a pregação do Evangelho ou levar pessoas a Jesus. Mas, em minha humilde concepção, no que se refere ao Evangelho, os meios são fundamentais. Aliás, encontrei ecos para esse meu raciocínio no pensamento sempre aberto de Eugene Peterson. Segundo ele: “A relação entre os fins (o lugar para onde estamos nos dirigindo) e os meios (como chegamos lá) é uma distinção fundamental na ciência, na tecnologia, na filosofia, na moral e na espiritualidade. Encaixar os meios corretos aos fins esperados é necessário em praticamente tudo o que fazemos, desde coisas tão simples quanto atravessar uma rua e fritar um ovo até complexidades implicadas numa missão à lua ou na composição de um romance. Mas a questão é a seguinte: os meios precisam ser não somente satisfatórios, mas também coerentes com os fins. Os meios precisam se encaixar aos fins. Caso contrário, tudo desmorona”. (O caminho de Jesus e os atalhos da igreja, p. 39). Os meios não podem ser abandonados, mesmo que o fim seja ideal. E finalmente, gostaria de novamente fazer um apelo a todo cristão de bem a não se calar diante das atrocidades feitas em nome de Deus. Confidencio a todos e a todas que num dado momento, frente aos mandos e desmandos ou mesmo frente à exaltação desenfreada da “visão”, acabei pensando que o errado era eu mesmo. Mas, posteriormente, recobrando a razão, me vi novamente me equilibrando em minha sanidade mental e espiritual. Todavia, não podemos nos calar. Temos que mudar a nossa atitude continuamente ante aos incômodos que outros geram em nós ou para nós. Os incomodados irão se mudar.