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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eu mando... Vocês Obedecem...

Acho ridícula toda e qualquer afirmação do poder pelo poder. Acho ridícula também toda e qualquer postura de superioridade adotada por esta ou aquela pessoa em relação a outrem. Acho, enfim, ridícula, a pessoa que afirma diante de outros a expressão: “eu mando... vocês obedecem”. Preciso considerar, de antemão, que todas as relações humanas são permeadas por essa esfera de poder, que por sua vez, se torna necessária para organizar a própria vida sócio-política dos seres humanos. Vivemos, assim, sob as determinações de um poder que muitas vezes não dominamos, tampouco controlamos. O problema em relação à questão do poder refere-se, primordialmente, ao fato de que essa manifestação social dá margem a que pessoas dominem pessoas. Assim, o problema não reside ao exercer ou não o poder, mas na forma como se exerce o poder. Em minha concepção, poder não pode ser exercido para subjugar pessoas. Todavia, como podemos pensar melhor as relações de poder sem essa subjugação? Na tentativa de responder a essa questão, fixamos primeiramente os olhos na vida e ministério de Jesus. Indubitavelmente, a forma como ele exerceu o seu poder é exemplar e digna de ser seguida pelas pessoas que tem responsabilidades de cuidado em relação aos outros. Jesus nunca mandou. Ele propôs questões para o juízo de seus discípulos, segundo a máxima: “Quem tem olhos para ouvir... quem tem ouvidos para ouvir...”. O único mandamento refere-se ao amor e o amor não subjuga pessoa qualquer. Jesus é o nosso modelo. No que se refere à conceituação bíblica de poder, podemos constatar que existem duas definições específicas: a primeira refere-se à palavra dinamismo e a segunda à palavra potestade. Dinamismo é a palavra que aparece, por exemplo, em Atos 1.8: “Mas recebereis dinamismo (poder) ao descer sobre vós o Espírito Santo”. Ora, essa dimensão de poder revela a todos nós que o poder, numa conceituação cristã, não pode ser o poder para subjugar as pessoas segundo os princípios da potestade. O dinamismo é a dinâmica da vida em seus intuitos de ampliar a vocação dos santos rumo aos ideais preconizados por Cristo e favorecer a melhor vivência dos cristãos, no mundo no qual se está inserido. Já a potestade tem a ver com dominação. Sendo assim, a frase: “Eu mando... vocês obedecem” não se insere na perspectiva dos principais argumentos bíblicos que exaltam a perspectiva do dinamismo, da força e do milagre. Na contramão da potestade, encontramos versos, como: Mateus 6.13. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o dinamismo (poder) e a glória para sempre”. Ou ainda: Romanos 1.16: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o dinamismo (poder) de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego”. E, enfim: Apocalipse 19.1. “Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o dinamismo (poder) são do nosso Deus”. Como interpretamos, nesses exemplos, averiguamos a dimensão de um poder que tem a ver com a explosão de vida na vida. Aliás, nessa mesma linha de raciocínio o Ricardo Godim diz alguma coisa fascinante: “Não pretendo segurar o amor de ninguém. Anseio por relacionamentos livres, leves e soltos, deixando que meus amigos acertem ou não o caminho deles. Que cada um conviva com as suas escolhas e construa o seu caminho no caminhar. Arrisco conviver na gratuidade dos afetos, sem cobrança. Preciso acreditar que ninguém deve nada a ninguém senão respeito à liberdade e à dignidade. Aventuro-me fazer o bem e não cobrar nada em troca. Já que desisto de um jeito de ser feliz, resta-me seguir pela vereda incerta da minha verdade. É melhor deitar a cabeça, sabendo que sou honesto comigo mesmo, do que aceitar os jogos de poder que me asfixiaram por anos. Não quero fórmulas fáceis, nem aceito “cinco passos para uma vida tranquila”. Essas receitas roubaram o meu bem mais precioso: tempo. Sei que o porvir não se converterá em um idílio no estalar dos dedos. Contento-me em notar que pequenas alegrias e poucos sorrisos pontuarão a minha existência. Não anelo por muito mais. Essas pitadas serão suficientes para eu dizer no fim de tudo: viver valeu”. (Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/para-poder-dizer-viver-valeu/) Sim, de fato, vale a pena viver sob o sol forte e intenso da liberdade. Não podemos abrir mão de sermos o que somos e de deixarmos as pessoas viverem as suas vidas sem as determinações frias das leis que criamos para embotar a aventura de viver e sofrer. Portanto, poder só tem sentido se for pra abrilhantar mais a vida e permitir às pessoas a possibilidade de viverem as suas auroras e seus crepúsculos. Na dinâmica do Evangelho, não há espaços para pessoas que querem mandar, mas sim, para pessoas que, no dinamismo de suas palavras e ações, cultivam relacionamentos de reciprocidade, de afetos e de solidariedade na caminhada. No caminho, come-se o pão com sabor de manjar e se apóia o outro em tempos sombrios, nublados ou primaveris.