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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pelo amor humilde, pela vocação, pelo serviço, por Jesus



Reflexões sobre o Ministério Pastoral.


Em alusão ao Dia do(a) pastor(a) metodista – 13.04.14






Introdução


As atuais demandas da sociedade moderna e a necessidade de equilíbrio e crescimento em todas as instituições têm desencadeado uma profusão de tratados sobre o significado e a importância da liderança. Em todos os níveis, a cobrança por líderes exemplares é evidente.


No campo da Igreja, principalmente no que se refere ao ministério pastoral, a mesma cobrança existe, mas entendemos haver uma diferenciação entre ser líder e ser pastor, mesmo porque a poimênica está alinhada ao movimento sempre dinâmico do Reino de Deus. Esta outra lógica é o serviço em amor humilde, que se encontra na contramão da perspectiva da liderança assinalada pelos manuais de auto-ajuda e eficácia. Tal contramão surge, em nossa concepção, da interpretação que fazemos do maior ato sacramental de Jesus – o momento em que encurvado o mestre lavou os pés dos seus discípulos. (João 13. 1-20).


De fato, o nosso mundo precisa muito mais do servo em pastoreio do que o ativismo de líderes. O objetivo desta pequena interferência é justamente provocar uma reflexão sobre a dicotomia entre ser pastor e ser líder.






Pastoreai o Rebanho de Deus


Entendemos que todos(as) os que se encontram em diálogo com Deus sofrem a tentação de transformar pedras em pães, fazer shows ou ainda dominar instâncias através da política (Mateus 4. 1-11). Aliás, há uma linha tênue que separa a vivência com Deus e a tentação de se tornar um deus.


É por isso que na contramão das tentações, o oferecimento de Deus para a sociedade, por intermédio da Igreja, é o serviço na dimensão do amor humilde na dinâmica do ministério pastoral. Ora, o ministério pastoral é marcado pela fragilidade, pela simplicidade e pela humildade. A imagem de um Deus Pastor é a imagem de um Ser pacientemente cuidando de seu rebanho. Jesus sempre se referiu a si mesmo como um pastor. (João 10. 1-18). Portanto, podemos considerar que na dinâmica pastoral não pode existir ostentação, tão somente o lirismo da contemplação e a percepção das reais necessidades das pessoas.


Segundo Eugene Peterson em seu livro A Vocação Espiritual do Pastor, “Existe uma longa e bem documentada tradição de sabedoria na fé cristã que indica que qualquer aventura como líder, quer seja leigo ou clérigo, é perigosa. É necessário que haja líderes, mas ai daqueles que se tornam líderes. A simples pressuposição da liderança – até mesmo os mais modestos avanços em direção a ela –, possibilita o aparecimento de pecados que eram então inacessíveis. Essas novas possibilidades são extremamente difíceis de serem reconhecidas como pecado, pois cada uma delas surge como virtude. Os descuidados abraçam essas novas ‘oportunidades’ para o serviço do Senhor, sem perceberem a realidade de que estão mordendo a isca – uma promessa que se transforma, mais cedo ou mais tarde, em maldição”. (Peterson, 24). De fato, existe um hiato entre o ser pastor e ser líder.


Talvez, com os olhos na imagem do pastor, Pedro, em sua primeira carta no capitulo 5. 1-7, tenha elaborado sua reflexão com a intenção de organizar a vivência equilibrada dos pastores no movimento social conhecido por nós como Diáspora (dispersão dos critãos-judeus pelas terras da Ásia menor, ocorrida a partir do ano 70 a.c.c.).






De presbítero para presbíteros


O texto anteriormente ressaltado começa com uma determinação: “Rogo-vos, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: Pastoreai o rebanho de Deus”. Interessante notar que Pedro apresenta as suas credenciais: é um presbítero como os outros; é testemunha dos sofrimentos de Cristo e comunga da futura revelação da glória.


Após se auto-apresentar, Pedro vaticina, rogando: PASTOREAI! A palavra em evidência não é liderai, mas pastoreai, que significa: efetivem a poimênica! Ora, trata-se de pastorear o rebanho que é de Deus, e não do presbítero. Interessante apontar que a comunidade não pode existir segundo o personalismo do pastor, mas de acordo com a imagem de Deus. Assim, o rebanho não pode se parecer com o pastor, mas com Deus. E embora muitos se posicionem como arautos(as) de Deus, como representantes legais de Deus, a referência que podem oferecer é pequena em relação ao que Deus é em sua real essência. Por esse motivo, Pedro exorta os pastores quanto à melhor forma de pastorear o rebanho de Deus.


- Não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer: Um dos grandes desafios para o ministério pastoral refere-se a manter a motivação do rebanho sem esmaecer a liberdade. Pelo conhecimento da verdade, chega-se à liberdade. Somos criados e nos desenvolvemos em maturidade para sermos livres, como Deus é livre. Por isso, na relação do pastor com o rebanho, não pode haver espaços para constrangimentos. Aliás, segundo a informação de Pedro, Deus não quer o constrangimento, mas sim a espontaneidade. Ora, espontâneo significa aquilo que não é aconselhado ou forçado; é o que é feito ou dito de livre vontade. Que se realiza por si só e sem causa aparente; que não é provocado. Sendo assim, pastores e pastoras não podem agir de forma a trazer peso sobre o coração das pessoas. Ao mesmo tempo, a espontaneidade tem a ver com o caráter, pois somente pode ser espontâneo quem é livre para sê-lo. O espontâneo não finge, tampouco usa máscaras; o espontâneo é honesto e transparente; o espontâneo é o que é e não esconde coisa alguma.


- Não por sórdida ganância, mas de boa vontade: Sabedor das dificuldades que muitas pessoas tinham em relação ao sustento das pessoas dedicadas ao anuncio da mensagem de Cristo, o apóstolo Paulo afirma: “digno é o obreiro do seu salário”. (1 Timóteo 5.8). Digno é o trabalhador que se lança na demanda do cotidiano e come do fruto do seu trabalho. Entretanto, o fato de um pastor(a) viver com a resultante dos dízimos e ofertas do rebanho de Deus o(a) coloca numa relação paradoxal, pois por um lado, dinheiro nenhum paga o que um(a) pastor(a) faz, principalmente quando auxilia uma pessoa no encontro de sentido na vida; por outro, nenhuma das suas ações, ditas espirituais, pode dar o direito de um(a) pastor(a) ser ganancioso(a). Segundo Eliana Vergara, integrante do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais: “Em psicanálise, ganância é um sentimento humano que se caracteriza por uma necessidade concreta, incontrolável de ter. Uma ambição desmedida, por poder, dinheiro, coisas materiais. Um sentimento voraz de querer sempre mais e mais, nunca estando satisfeito”. Trata-se, portanto, de um sentimento destrutivo e que, segundo a psicóloga e psicanalista Giselle Groeninga, especialista na área de família, tem sua origem na voracidade. “O desejo é o que move a vida. É da sua característica nunca ser totalmente satisfeito: ele implica necessariamente frustração. Uma baixa tolerância à frustração pode implicar a intensificação do desejo e aí ele se transforma em voracidade, quando se quer mais do que se necessita e do que o outro está disposto a dar”. Assim, uma coisa é a necessidade, outra coisa bem diferente é o luxo. Um ministério pastoral não pode ter por base a usura em relação a bens materiais ou conforto aos moldes dos altos padrões da sociedade. O Senhor nos livre dessa tentação. Na contramão deste processo, deve existir, tão somente, a boa vontade pra viver um vida simples e a abertura para se colocar à disposição do outro com o coração sincero.


- Não como dominadores, mas como modelo: a autoridade é aqui posta à prova. De fato, autoridade é necessária, mas não o autoritarismo ou ditadura. Pedro exorta os pastores a não serem dominadores. O domínio busca sempre o estabelecimento da verdade de uma pessoa sobre a verdade da outra. Ora, verdade é um conceito frágil, pois ligado aos subjetivismos e culturas. Já o domínio requer a subjugação das pessoas pelos caminhos iníquos e perversos. Dominar é completamente diferente de se apresentar como modelo ou exemplo. Entretanto, não se é exemplo de si mesmo, mas de Cristo. Aliás, o propósito de todo(a) pastor(a) é o de se parecer com Jesus. O que vier aquém ou além disso torna-se digressão. Como bem nos lembra Albert Schweitzer: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros – é a única”.






A revelação do Supremo Pastor


O cuidado pastoral e espiritual deve ser um reflexo da ação graciosa de Deus para com as pessoas no mundo. Não se pode em hipótese alguma roubar a glória que pertence a Deus. Desta forma, a(o) pastora(or), que exerce a poimênica sobre o rebanho de Deus é uma referência do amor e da graça de Deus. Aliás, em nossa concepção, um ministério pastoral não pode se imiscuir desta perspectiva. Sem amor e sem graça, o ministério pastoral tende à ruína. Ademais, é mesmo Deus, na metáfora do Supremo Pastor, quem se revela aos pensamentos e intuições espirituais daqueles que ministram na sua Igreja. Nesta perspectiva, todo aquele que se sente vocacionado para o ministério pastoral, ao assumir o cuidado do rebanho de Deus, nada mais é do que um co-pastor ou pastora ajudante. Em suma, neste cuidado, a(o) pastora(or) vivencia o mistério da encarnação.


Segundo David Fisher, em seu livro O Pastor do Século XXI, “o raciocínio pastoral está enraizado na encarnação de Cristo. A maneira como vemos toda a realidade, especialmente nosso trabalho como pastores, flui do padrão estabelecido quando Deus se tornou carne por nós. A encarnação é o exemplo mais espetacular de uma decisão missionária já tomada. Deus entregou sua revelação final à raça humana, ao revestir-se de carne e entrar em uma cultura particular, em um momento específico”.


A estes(as) que entendem bem o papel de referenciar a ação pastoral de Deus mesmo entre os seres humanos, restará receber ao final das contas a imarscessível coroa de glória. Ora, esta coroa não é a premiação alcançada pelo êxito ou o sucesso, mas pela fidelidade. Em 1 Coríntios 4.2, Paulo afirma que o que o Senhor requer dos despenseiros dos seus mistérios é que cada um seja encontrado fiel. Fidelidade é a palavra chave. O que é achado fiel ganhará a coroa da vida. (Apocalipse 2.10).






Conclusão


A singular interferência que procuramos oferecer é somente uma provocação em relação ao papel que pastores e pastoras devem desenvolver na dinâmica eclesial. Embora, estes(as) sejam continuamente convidados e até desafiados a serem líderes, torna-se imperativo fugir dessa tentação por intermédio do serviço. O encantamento para se tornar um líder de sucesso é extremamente artificial. Ceder à estrutura de mercado que dinamiza os processos sociais segundo a lógica do sucesso significa trair a vocação e o chamado para cuidar das gentes. Infelizmente, muitos querem marcar suas ralas trajetórias com atos e feitos vultosos. Usam e abusam de seus falsetes ministeriais para imporem visões sobre o improvável. Negam a humildade e se orgulham do fato de se considerarem homens e mulheres de Deus.


Pastoras e pastores precisam ter os olhos fitos no Supremo Pastor, encarnado em Jesus Cristo, cujo pastoreio se restringiu ao cuidado com as pessoas na dimensão do amor humilde. O posicionamento ministerial não possui caminho alternativo. Aqui, vale a máxima do sim, sim, não, não. Ou se é pastor segundo o Supremo Pastor ou se é um(a) líder sintonizado(a) com as demandas do êxito e do sucesso. Neste caso, melhor seria transformar as Igrejas em agências de auto-ajuda a mantê-las mutiladas em seus princípios evangélicos elementares. O sentido da vida humana não reside em se alcançar o sucesso, mas em ficar bem, viver melhor. Deus seja conosco.


Moisés Coppe.

10.04.14.

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