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terça-feira, 24 de junho de 2014

Mandingas Evangélicas???


Na noite do dia 19 de junho de 2014, após uma amistosa visita a amigos e a compartilha em uma mesa comum, me senti estarrecido quando no retorno para a minha casa observei um carro com um adesivo no vidro traseiro apresentando a seguinte afirmação: “Veículo guardado pelo quarto homem da fornalha”. Ora, para mim que já percorri todos os livros da Bíblia, perguntando pelo sentido implícito e explícito em cada narrativa, o entendimento me veio rapidamente. Tratava-se de uma alusão ao texto de Daniel, mais precisamente o capítulo três, onde os companheiros de Daniel – Sadraque, Mesaque e Abedenego – depois de terem desobedecido a ordem do rei Nabucodonosor, foram lançados na fornalha de fogo ardente. Em dado momento, no meio da narrativa aparece a frase estupefata de um dos seus assessores dizendo haver lá uma quarta figura, semelhante ao filho dos deuses.
Com essa premissa, a tradição cristã posterior interpretou este quarto homem como sendo o próprio Jesus, antes do seu nascimento, embora tal afirmativa esteja na contramão de toda e qualquer interpretação oriunda da tradição judaica. Enfim, o que estava sendo afirmado no plástico daquele carro era que Jesus estava guardando o carro daquele cidadão.
Como o leitor já deve ter percebido, nada há de sensato nessa afirmação feita pelo dono do carro. Em primeiro lugar, porque ela é restrita a um determinado e específico grupo religioso. Em segundo lugar, porque esta referência não pode servir de mandinga religiosa pra afugentar qualquer tipo de roubo, furto ou acidente de carro. Por mandinga, entendo, numa perspectiva informal, o fato de pessoas darem uma carga simbólica a um objeto construído pelo próprio ser humano, que assume uma força de interferência sobrenatural, um feitiço. Assim, fiquei pensando nas pessoas que abraçam uma espécie de fé cega em algo ou alguma coisa, fruto talvez de um sermão ouvido em alguma assembléia religiosa cheia de expectativas e emoções. Refleti também sobre a enorme quantidade de bobagens que são “distribuídas” nos múltiplos cultos espalhados pelo nosso país.  Fico pasmo com o fato de que líderes religiosos, alguns até com certa informação e gabarito teológico, dêem liberdade a campanhas não centradas em Jesus, mas em objetos, quinquilharias e mandingas ungidas que têm por objetivo curar, libertar e abençoar as pessoas. O problema maior é que estes objetos não fazem parte de um roteiro litúrgico ou de uma simbologia restrita ao sermão ou culto. Não existe um caráter pedagógico e instrutivo. São moedas de troca religiosa, que existem para alimentar os cofres eclesiásticos com dinheiro alheio. Fico pensando, enfim, na fragilidade da experiência religiosa e de como as pessoas tem necessidade de fixar os pés em terrenos gelatinosos e movediços.
De minha parte, sem nenhuma espécie de preconceito ou arrogância, me perturbo pelo fato das pessoas estarem perdidas em suas reflexões no campo da fé, achando que simples fórmulas, mandingas religiosas e plásticos nos carros ou motos vão lhes afastar das complicações e problemas da vida.
Particularmente, entendo que as pessoas se sentem desprotegidas e buscam objetos, quinquilharias ou mandingas que tragam algum sentido aos seus mistérios, com vias a se sentirem um pouco menos estranhas no mundo. Mas a apelação tem passado do limite. Assim, afirmações de vitória e de conquista são assumidas como respostas às crises comuns existentes no cotidiano.
Em minha concepção, não é bom que seja assim. Ao contrário, devemos conjuntamente indicar que a vida sempre vai nos apresentar situações desconcertantes e estressantes, assim como belas e harmonizadas. Dessa forma, nunca chegaremos a um patamar situacional tranqüilo. Sempre seremos visitados pela inquietude. O sentimento de paz abarcado por muitos não é petrificado, mas uma possibilidade de aceitação da vida como ela é.
Portanto, devemos nos livrar contundentemente das mandingas religiosas que parecem oferecer certa segurança, mas são penduricalhos que não levam pessoa alguma a lugar algum. O que o ser humano precisa é de uma fé viva e persistente que se aperfeiçoa no entendimento de que não existem fórmulas mágicas, canções sobrenaturais ou adesivos ungidos para que alguns seres humanos se dêem bem na vida ou se destaquem em relação a outras pessoas, afinal de contas, “Deus faz chover seu sol sobre todos” (sic). Então, afirmações ou mandingas não vão gerar uma proteção especial. Categoricamente, digo que não! Deus se revela graciosamente a justos e injustos. A destinação da graça é para todos os seres vivos. A adoção de uma espécie de eleição especial para aqueles que um dia se encontraram com Jesus de forma mais efetiva me parece ridícula! Sinto muito, mas o homem da fornalha pode até abençoar a sua vida, mas não de forma especial!
O fato é que nós precisamos de cristãos(as) honestos(as) que compreendam bem o sentido da vida. Não há privilegiados, mas guerreiros que lutam continuamente por uma vida mais digna e melhor. Não há proteções especiais para crentes, enquanto outros são lançados ao acaso da vida. O que há, invariavelmente, são pessoas desejosas por dignidade na existência. E isso é o que me apetece sempre.