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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Novas (não tão novas) considerações sobre a santidade...


Acredito, inicialmente, que toda a reflexão que elaboramos, estudamos e pregamos é fruto da nossa santidade vocacional, ou seja, da forma pela qual desenvolvemos a dinâmica de nossa prática pastoral (prefiro chamar de santidade vocacional). Sendo assim, quando refletimos sobre a Bíblia, nossa percepção dos textos se dá em diálogo com a nossa vivência em comunidade. De fato, abandonei a ideia de um Deus distante da minha realidade há bastante tempo. Minha relação com Ele hoje é de extrema amistosidade. Inclusive, para mim, o projeto de santidade de Deus é um projeto de amizade com o ser humano. Se santidade está diretamente ligada à dimensão da intimidade, então só é possível desenvolver essa última instância na perspectiva da amizade, pois quem é amigo não julga, não se ressente, não cobra, mas exorta/ consola no campo do amor mais genuíno possível.
A grande salvação do ser humano reside nessa disposição para se relacionar com Deus, como amigo. Abraão, inclusive, foi chamado amigo de Deus.
Na vida em comunidade, essa dimensão dinâmica precisa ser buscada. O ideal é que todas as pessoas que se destinam à igreja o façam por estrita espontaneidade. Pessoa alguma deve ir porque tem que obedecer a Deus, mas porque o ama livremente. Ora, o nosso amor a Deus é uma resposta livre e responsável, não é uma resposta cauterizada pela obediência cega, surda e muda. A obediência a Deus e à Sua Palavra é fruto de um relacionamento seguro com Ele. Pensemos, por exemplo, na família. Se você não conseguir desenvolver elos de liberdade e aproximação amistosa com os seus queridos entes, você acaba por perder essas pessoas.
Pense comigo também sobre o significado de viver de modo digno do evangelho: Jesus foi um incompreendido. As pessoas da sua sociedade o recriminaram, o rotularam - inclusive chamando-o de maioral de Belzebu. Jesus rompeu com o comércio do templo e essa foi a principal causa que o levou à morte. Sua pregação tinha por esteio as parábolas e o alto teor subversivo das mesmas. Entretanto, Ele se entregou à amizade aos seus discípulos. Claro, não pôde aprofundá-la com todos, mas entre os doze, quatro eram muito próximos a Ele. Mesmo assim, chamou a todos de amigos, transpondo a relação de mestre e servos. Aliás, o evento conhecido como “lava-pés” é o ápice de alguém que serve por amar e ama servir. Em minha concepção pessoal, só se serve por amor e só se ama servir, quando uma relação de confiabilidade se qualifica. Só a dimensão da amizade pode propor isso.
Tenho consciência de que as argumentações aqui apresentadas são um pouco diferente do habitual, e espero sinceramente que todos as considerem não como uma verdade, todavia como uma partilha pastoral. Essa perspectiva tem me dado algumas boas respostas para minha santidade vocacional. Por exemplo, hoje eu não mais sirvo a Jesus por uma resposta ao seu chamado, mas sim como um companheiro menor que quer aprender amistosamente com Ele tudo de melhor pra ser mais companheiro dos meus irmãos e irmãs e, quem sabe, estabelecer boas amizades com alguns.
De fato, nesse desafio, temos dificuldades no desenvolvimento de amizades com os irmãos e irmãs na comunidade, mesmo porque as pessoas não podem compreender todas as complexidades que ocorrem no campo da vida pastoral. Existem questões que somente os pastores conhecem e sofrem.
Entretanto, com Deus, a proposta é outra. Com Deus, a gente pode ser a gente mesmo e a melhor forma de nos relacionarmos com Ele se dá por intermédio de uma vivência aberta, sem máscaras, divinamente marcada pela amizade. Esta é somente a partilha de um sentimento pessoal que sei, já goza do seu respeito.
Por fim, gostaria de dizer que nossas vidas e testemunhos são sempre inspiração para o próximo. Mesmo em meio às lutas e problemas, que todos temos, experimentamos a força que vem por intermédio da graça amistosa de Deus.
É preciso crer em Deus como um grande amigo que não desamparará jamais. Mesmo quando a dor continuar a indicar sua luz vermelha no terreno da alma, Ele, nosso Amigo, se coloca ao nosso lado para chorar conosco nosso choro.
Nas linhas da nossa histórica hinologia: "Achei um bom amigo, Jesus o Salvador, o escolhido dos milhares para mim".