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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Um pastor que chora

Texto do amigo Luciano Sathler
“Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! Jesus chorou.” João 11:33-35.
No momento em que escrevo esta, faz uma semana que perdemos um membro da Igreja, morto aos 54 anos, após um ataque cardíaco fulminante. Sua família é muito querida, a começar por seus pais, com décadas em dedicação à Obra de Deus, além da esposa e filha enlutadas, todos amados e atuantes na vida da comunidade.
Muitos irmãos e irmãs se fizeram presentes no velório e no enterro. A solidariedade manifesta ajuda na consolação, em momentos como esse. Nossos pastores e pastoras estavam vividamente impactados e não conseguiram prender a emoção.
No caso de pastores e pastoras, dirigir momentos de despedida diante da morte é sempre uma situação complicada. Não é fácil ter o equilíbrio emocional para se alegrar com os que se alegram, chorar com os que choram e fortificar os mais fracos. E devem estar preparados para essas variações em todo o tempo, a qualquer hora e em qualquer lugar.
Acho difícil que alguém possa encarar o pastorado exclusivamente como uma profissão, com a sua deontologia própria, um conjunto de deveres estabelecidos a partir de um código específico de conduta. Seria uma ‘sombra’ a cumprir apenas o formalmente esperado, tendo um mínimo de envolvimento emocional com os membros da Igreja. Pouco ou nenhum fruto se perceberia com o passar dos anos.
Dou graças a Deus por ser liderado por pastores e pastoras que choram. Que riem. Que se emocionam junto, que têm discernimento para perceberem o momento exato em que um simples ‘tudo bem’ não é suficiente, se aproximam. Isso se chama simpatia, essencialmente o mesmo que designamos como compaixão. Não é razão, não são hábitos, mas emoção. A etimologia para simpatia e emoção é a mesma: ‘sentindo com’.
“Por mais egoísta que se suponha que seja o ser humano, evidentemente há, na sua natureza, alguns princípios que o interessam e que dizem respeito à sorte dos outros, tornando a felicidade deles necessária à sua, embora nada ganhe com isso, a não ser o prazer de assisti-la. Nessa categoria está a piedade ou compaixão, a emoção que sentimos diante do sofrimento de outros. Sem compaixão (simpatia), não haveria fundamento nem motivação para a ética.” * 
Tanto a empatia, sobre a qual escrevemos há algumas semanas, como a compaixão / simpatia são respostas afetivas e cognitivas, ou seja, envolvem conceitos e formas de construir o mundo. O choro de Jesus, em João 11;35, foi um discreto verter de lágrimas, sem desespero ou gritaria. Mesmo sabendo o que viria, a ressurreição de Lázaro, Cristo não se conteve diante da miséria humana, causada pelo pecado, todo sofrimento no qual a humanidade voluntariamente se coloca ao optar por seguir fora da Vontade de Deus. Foi mais uma prova que ELE sabia se colocar no lugar do outro. Algo fundamental para o desenvolvimento do amor. Um sentimento moral intrínseco ao pastoreio.


* SOLOMON, R. C. Fiéis às nossas emoções: o que elas realmente nos dizem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.